Autor: Nordestinados a Ler

Cecília Meireles e alguns Problemas da Literatura Infantil
Literatura

Cecília Meireles e alguns Problemas da Literatura Infantil

Não é difícil escrever sobre uma escorpiana - Cecília Meireles - nascida em 07 de novembro de 1901 que exalava mistério, intensidade, magnetismo e uma força descomunal após algumas perdas. Difícil é traduzir em palavras as ausências de uma criança. Antes de nascer, seus pais, Carlos Alberto Carvalho Benevides (funcionário do Banco do Brasil) e Mathilde Benevides (professora primária), haviam perdido outros três filhos: Carmen, Vitor e Carlos. Três mês antes de vir ao mundo, Cecília fica sem o pai. Próximo de completar três anos de idade, falece a mãe. Cecília foi criada pela avó Jacinta e pela babá, Pedrina, que lhe contava histórias do folclore brasileiro. Anos mais tarde, Cecília participaria ativamente da Comissão Nacional de Folclore, porque acreditava se...
  Ensaio para Dias Floridos
Literatura

  Ensaio para Dias Floridos

Macramê se espalhando pelas mãos. A linha costurava paciência, pontuava feridas, juntava no chão a delicadeza. O macarrão com pimenta calabresa, molho de tomate e alho refogava as linhas do jantar, que se nutria de olhares esboçados, de um armarinho de sorrisos. Alguns toques suaves de beijos se faziam vento.  O vestido de listas azuis, bordado de flores, a deixava um jardim. Não era primavera, mas as flores brotaram num piscar de olhos. A jiboia, ganha de presente, estava se recuperando para se espalhar em linhas pela casa, deixando rastros verdes e brancos. Enquanto comia morangos, colhia suas sementes para dois vasos, para engravidar moranguinhos. O vestido de listas azuis, bordado de flores, saiu antes do sol nascer, deixou o macramê para refazer – aquele que segurava um lam...
A cabeça do santo: uma história com mulheres fortes, muitos segredos e um final singelo
Literatura

A cabeça do santo: uma história com mulheres fortes, muitos segredos e um final singelo

A leitura salvou minha vida. Salvou minha vida por me fazer sonhar, nunca parar de escrever, ousar, planejar, empreender (como diz meu querido amigo Boanerges Custódio) e, principalmente, imaginar.   Ler é buscar novas ideias, histórias que nos tirem da poltrona, é ousar, sonhar, ver novos mundos, lugares e pessoas. Sofrer e se alegrar com essas pessoas e situações. E foi com a vontade de buscar um mundo novo como se eu tivesse diante de mim a abertura de mil portas na minha mente e alma que li com avidez e uma incrível sensação de nordestinidade e cearensidade a partir da dica de minha nora de coração, Mairla Santos, e com espanto de felicidade o livro A cabeça do santo, da escritora cearense Socorro Acioli. O livro nos leva à inusitada história de um jovem que sai de Juazei...
A poeta das plantas
Literatura

A poeta das plantas

Nas manhãs frias e chorosas, fabriquemos o fogo e os girassóis. Na entrada da casa, espadas de São Jorge e Santa Bárbara testemunham a travessia do tempo, do cuidado e do carinho. As noites estão mais iluminadas: faço fogueira, deito no colo, escuto histórias que assanham meus cabelos. Fiz a barba, cortei o cabelo, estou mais novo. A idade é a mesma: quatro décadas e meia dúzia. Chuto pedras para brincar com as estrelas, ando meio abobado. Talvez seja a fogueira no meio da casa e tuas espadas de São Jorge e Santa Bárbara. Tomo sopa de costela com pão, enquanto observo o gosto do teu sorriso. Tuas malas, aos poucos, vão se encaixando. Mando fazer uma chave da porta de entrada para que entres sem bater. Podes incendiar as madrugadas e o resto do dia. Quando entrares, olha para os lados...
 Alforrias: um convite à poética de Rita Santana
Literatura

 Alforrias: um convite à poética de Rita Santana

Luciana Bessa Alforrias, obra poética da escritora baiana Rita Santana, publicada em 2012, traz vinte e oito poemas e um convite aos leitores: compartilhar da caminhada de um sujeito lírico que imprime à obra tonalidades afrodescentes. Além de vocábulos - “ancestrais”, “moleque”, “quilombolas”, “alambique” – esse tom já é perceptível no próprio título: “alforrias”. O maior desejo dos escravizados era conseguir sua “carta de alforria”, documento que oficializava sua liberdade. Outra conotação que o termo traz é a liberdade em relação ao homem amado, ao sentimento amoroso. Assim como o bardo português, Luís Vaz de Camões, se estiver presa é “por vontade” e nada mais. Rita Santana convidou outra poeta, Hilda Hilst, para participar da obra dela por meio do poema, colocado como epígraf...
Dia das Crianças no Gesso: uma festa política para a classe trabalhadora
Cultura

Dia das Crianças no Gesso: uma festa política para a classe trabalhadora

Alexandre Lucas Existe algo de diferente no Dia das Crianças no Gesso? Essa pergunta pode ser norteadora para repensar metodologias pedagógicas e políticas de organização popular. O Dia das Crianças no Gesso é realizado desde 2009, na cidade do Crato, a partir da iniciativa do Ponto de Cultura Coletivo Camaradas. A localidade é a principal área de atuação dessa organização de esquerda de viés marxista, que funciona como laboratório social para experimentar a relação entre teoria e prática no campo da democratização estética e artística, da educação ambiental e da luta pelo direito à cidade. O Dia das Crianças, enquanto evento, é uma ação bastante comum em escolas, organizações da sociedade civil e iniciativas coletivas e individuais nos bairros. São normalmente...
Como as Democracias Morrem
Literatura

Como as Democracias Morrem

Tarso Araújo O livro Como as Democracias Morrem é um daqueles trabalhos que já entraram para a história da literatura mundial por ser uma espécie de chamamento para decifrar o espírito dos nossos dias atuais. As democracias estão passando por dificuldades. Setores grandes das sociedades se veem sufocados, acham a democracia uma desgraça e embarcam em qualquer aventura extremista para se livrar do que consideram um problema. As democracias, o estado perverso, a educação, a comunidade LGBT, o outro que não professa a mesma ideia de Deus e religião, um imigrante, ou um sindicalista, um comunista, enfim, quem é ou pode ser considerado – ou eleito – como um inimigo. Gente que cresce e não realiza seus sonhos, fica uma pessoa ressentida é um poço para o extremismo. Gente mal resolvida, com...
Quando uma criança nasce
Literatura

Quando uma criança nasce

Alexandre Lucas Beijo o útero como partilha do verso e massagem da carne. As cores se mesclavam no final da tarde, entre bandeiras e fantasias, batuques e algodão doce. Pulos, carreiras e brincadeiras. As crianças: poesias andantes. As ruas, banhadas de canções de amor. Seus olhos brilhavam. Observava a menina negra que carregava uma sacola com bombons, quase do seu tamanho. Fotografava a vó e o seu neto. Lançou um sorriso-abraço ao conhecer a costureira que acompanhava o filho. Fez-se noite. Costurou a pele com os seus dedos macios. Fez bordado com fios de leveza e cumplicidade. Acendeu chamas e tocou uma valsa para ser sentida no balanço da rede. Manhã. A renda borda seu corpo espreguiçando bom-dia. Tuas unhas, pintadas durante a noite, preenchem a delicadeza dos teus dedos. ...
Do signo de virgem e suas análises conscienciosas: Zila Mamede
Literatura

Do signo de virgem e suas análises conscienciosas: Zila Mamede

Émerson Cardoso Criadora de uma produção literária notável em forma e em conteúdo, Zila Mamede é das autoras brasileiras mais admiráveis, embora ainda precise de maior visibilidade em torno de sua obra, sobretudo em âmbito nacional. Referência na área de Biblioteconomia do Rio Grande do Norte, além de sua atuação como bibliotecária, ela foi redatora, contadora e ensaísta, mas foi (e tem sido) como poeta que seu nome tornou-se merecidamente conhecido.Nascida na Paraíba–PB, Zila Mamede viveu maior parte da vida no Rio Grande do Norte–RN e, desse modo, tornou-se a voz feminina riograndense de maior relevo literário. Sensível, expressiva e atenta à construção da palavra esteticamente trabalhada, estamos diante de poeta complexa que dispõe de produção literária na qual conteúdo e forma harmo...
O mar é violento
Literatura

O mar é violento

Alexandre Lucas Desesperadamente, escreveu cem cartas de amor. Acabara de conhecer o mar. O mar é imenso, é fundo, é calmo, violento. O mar e o amor já não cabem na mala. O pequeno homem está de passagem: toca a terra, sente a água, brinca com as conchas. O pequeno homem acredita que o mar está cantando para os seus ouvidos. O vento revolta as águas e faz barulho; o mar não canta. São intervalos de ilusão, enquanto o pequeno homem procura os céus de cabeça enfiada no chão. Pega as cem cartas e faz barquinhos. O mar derruba as cartas. O pequeno homem, já distante, lê Neruda, que morava de frente para o mar e teve muitos amores. O pequeno homem escreve novas cartas, mas não aprendeu a nadar, cuida de uma roseira e teme que o mar acabe com o mundo. Sobre o autor: Alexand...