
Na ponta da língua trago as tempestades e a dança das folhas. Coço a barba como quem procura respostas no céu sem estrelas. Enquanto o pescador joga a rede para pescar, ando jogando labirintos. Na padaria, leio apressadamente Thiago de Mello acompanhado de um café grande e um pão. Enquanto engulo os versos de esperança e ternura, mexo a colher num movimento enfadonho de círculos. Vontade de quebrar a xícara, subir na mesa, gritar mil poemas de Inãron, livro de rebeldia do cineasta Rosemberg Cariry. Pago a conta e saio disfarçado de calmaria.
Chego em casa, observo da varanda os pássaros que comem migalhas de uma sobra de banana. Tomo mais café, desta vez com canela. Os pássaros voam. Fransquinha atravessa a rua e conversa com o bodegueiro; informa que mais tarde irá fazer umas compras para Maria Branca, que não consegue sair de casa. Maria Branca já serviu muitos homens; hoje, uma bengala lhe serve.
Deixei o texto de molho — não que ele estivesse encardido, mas é como se precisasse contar até dez e depois mais vinte. Não adiantou muita coisa; parece que continuo jogando labirintos.
Hoje é outro dia, tirei o texto do molho. Chove. As plantas estão brilhantes, os pássaros cantam, e acredito que estão dançando. Inãron está do meu lado; Thiago de Mello deixei na mochila de couro. Daqui a pouco ele estará nas minhas costas — vou lê-lo no caminho. O dia está de choro; vou fazer uma fogueira para esquentar os céus e, mesmo que ele chore, não posso deixar que os versos de furacão e de primavera adormeçam na cabeça e no coração.
Sobre o autor:

Alexandre Lucas é escrevedor, articulista e editor do Portal Vermelho.
