Carta para a presença

Alexandre Lucas

Poderia ter perdido a chave de casa dez vezes no mesmo dia e tê-la encontrado outras dez no bolso da calça. Talvez fosse possível se perder no caminho para o trabalho, esquecer de tomar café logo cedo e de vestir a roupa ao sair à rua. Mas, naquele dia, o esquecimento estava morto. A cada pisada, uma martelada era o lembrete. Decidiu guardar cada um e fazer de conta que uma amnésia havia feito morada.

A história são recortes do tempo em que a amnésia é sepultada. Nada morre por completo. Aquele dia foi para o enfrentamento e a fuga. Viajou. À meia-noite, estava dormindo propositalmente. Se sonhou, fez questão de esquecer.

Nenhuma carta ridícula foi disparada, e todas as cartas de amor foram queimadas — pelo menos naquele dia. O coração, costurado com barbantes envelhecidos, esticava como se estivesse sendo estrangulado.

Celebrar o desencontro, certamente, seja a forma mais sensata de festejar novos encontros. Naquele dia, não houve rosas vermelhas, nem surpresas pela manhã, nadinha.

Foi um dia quente e desencantado. Sete demônios! A poeira e o vento levaram as rosas, os bolos e os brilhos. O verso resolveu se encolher para não ser percebido.

— Guardo um bolo remendado para as manhãs mais utópicas — disse o homem, sangrando lágrimas.

Saiu em viagem, tentando matar as noites de insônia.

Sobre o autor:

Alexandre Lucas é escrevedor, articulista e editor do Portal Vermelho.