
Nenhum anjo jamais me visitou, embora saiba que há quem acredite em sua existência. Mas não quero falar de anjos. Poderia começar esta carta de outra forma. Narrar vinte e dois anos, o tempo que nos conhecemos. Tenho a incerta certeza de que nos conhecemos muito pouco. Poderia aproveitar para destrinchar o amor que sinto – é óbvio que isso é esperado.
Mas talvez eu seja o pai inesperado. Deixo aqui um intervalo para suas interrogações. É preciso parar constantemente para refletir sobre o que nos rodeia: seres e coisas. Nada está parado; o movimento é interminável, mesmo quando seres e coisas parecem estáticos.
Filho, os pais costumam ensinar a “ser gente”. Eu nunca insistirei nessa maldade – seria, para mim, um pecado. Não aquele pecado que está escrito em algum livro sagrado, mas aquele que promove o individualismo, a competição e a própria destruição do planeta, porque “ser gente”, da forma como nos ensinam, é ser perverso. É cuidar de si, e danem-se os outros.
Desde pequeno, nunca quis ser gente. Quis, sim, foi ser comunista. Dividir o pão, a terra e o amor. Mesmo não tendo isso, aprendi que era preciso tomar de quem tinha muito para repartir. Lógico, filho, isso não se dá plantando flores nem com declarações de amor. A história mostra que as flores decoraram os túmulos dos que tombaram lutando por um mundo de ternura e partilha.
Ser filho de comunista talvez traga desprazeres. A gente está sempre lutando. Se não lutar, não faz sentido. A luta é a nossa oração diária por um mundo melhor.
Você, mesmo não sabendo, há vinte e dois anos faz parte desse repertório, dessa oração, dessa tentativa de enxergar e tecer novos horizontes.
Outro dia conversamos sobre o “bombardeio” dos Estados Unidos à Venezuela, e fiquei pensando sobre as formas diferentes de contar a mesma história. Filho, há vinte e dois anos te conto a história de dividir a fartura para a humanidade.
Se o presente é de luta, este é o maior presente que te ofereço todos os dias.
Sobre o autor:

Alexandre Lucas é escrevedor, articulista e editor do Portal Vermelho.
