Literatura

Não tão bela adormecida
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Não tão bela adormecida

Dina Melo O vento arremessou os telhados Pequenos blocos de reboco caíram pelo chão O bolor subiu da terra úmida O sol descascou a tinta As frutas amareleceram esquecidas nos cestos Tudo cheirava a abandono Escassez Como adormecida, eu andava A poeira se acumulava nos móveis e, distraída, eu desenhava espirais, nuvens, corações Me movia lentamente, crendo que assim o piso não rangeria Sentava nas velhas cadeiras e me punha a remendar as roupas Tentava varrer o chão que desaparecia sob meus pés Tonta, punha flores nos vasos quebrados Comprava vidros coloridos Às vezes, numa fúria louca, bailava pela casa Saía ao relento para que minhas lágrimas se confundissem com as gotas de chuva Os azulejos estalavam Os canos vertiam água As raízes...
Era tarde da noite e eu nem percebi a vitória do breu
Literatura

Era tarde da noite e eu nem percebi a vitória do breu

Shirley Pinheiro As ruas vazias apressam meus passos. O caminho de volta é sempre muito escuro. E o silêncio que desliza pelo asfalto, derrete as solas dos meus sapatos. Hoje faz frio. Embora a chuva tenha cessado, o vento ainda respinga gotículas em meu rosto, como lágrimas que encontraram seu destino. Queria poder pular nas poças que se formam à beira da calçada, mas tenho um livro novinho na mochila que não ouso molhar. Aquelas páginas, ainda não lidas, exigem prudência. Então termino meu trajeto sem muitas extravagâncias. A chegada é sempre um alívio. Não que haja muita presteza ao fim da jornada. Geralmente é quando o peso do mundo torna aos meus ombros. Mas é também quando a casa, que não é lar, torna-se fortaleza. Ao subir as escadas, a solidão recua e os cômodos iluminados...
Tempos para fazer bolos
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Tempos para fazer bolos

Alexandre Lucas* Saudade de bolo de cenoura com cobertura de chocolate, isso pode ser um código anunciado meio dia e meio, ou a qualquer momento em que a ausência bate na porta para derrubar. Três dedos de vinho e uma preguiça imensa de ir comprar outra garrafa, a saudade pede vinho. Se possível trocaria a garrafa de vinho por esquecimentos seletivos, deixaria na memória apenas aquilo que não doesse. Mas não quero bolo de cenoura com cobertura de chocolate que me faz mal. Poderia tomar uma garrafa de amnésia para sustentar a realidade, mas elas não existem.  As folhas dançam, nem sempre podem ir com vento. Os bolos acabam. Ainda não acabei o vinho. Os planos para o dia seguinte estão amassados no bolso junto com molho de chaves que não encontram fechaduras. Mas amanhã é se...
As relações familiares na obra A Casa de Natércia Campos
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As relações familiares na obra A Casa de Natércia Campos

Luciana Bessa* A família, como é sabido, é o primeiro e o principal grupo familiar que nós humanos integramos. É preciso divisar a família que temos e a família que desejamos. Essa instituição, espaço de contradições, conflitos e harmonia, ao longo dos séculos, tem sido defendida pela Igreja, pelo Estado, sobremaneira, por seus membros para manter um status quo social. Para conservá-la intacta já foram cometidas inúmeras atrocidades, na realidade ou na ficção. A escritora cearense Natércia Campos (1938-2004), filha do contista Moreira Campos, sempre gostou de ler e de escrever. Contudo, somente ao se tornar avó decidiu compartilhar seus escritos com o público.  Estreou na literatura com uma obra de contos, Iluminuras (1988), prêmio na 4ª Bienal Nestlé de Literatura Brasileira. Em seg...
Mais pedagogia, menos militarismo e mercado
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Mais pedagogia, menos militarismo e mercado

Alexandre Lucas* A escola é um espaço de contradição. Os resquícios da escola tradicional e tecnicista ainda estão presentes em discursos e práticas reducionistas e conservadoras, colocando como primário, regras de comportamentos que oprimem e silenciam o espaço da criticidade.  A ideia de disciplina ainda é focada na acepção militarista de organização que se contrapõe às concepções pedagógicas se propõem a apropriação contextualizada e crítica do conhecimento.    A escola é um espaço de confluência e conflitos de diversas concepções pedagógicas, alinhadas à manutenção do atual sistema político-econômico-social e também as que defendem uma outra perspectiva de sociedade. Entretanto, predominantemente as concepções pedagógicas que reproduzem política-ideologicamente as ...
Não se faz política cultural com atrasos e migalhas
Literatura

Não se faz política cultural com atrasos e migalhas

Alexandre Lucas* A cultura precisa ser percebida como investimento para construção de nova civilidade. Duas questões rementem a essa perspectiva: a primeira é a compreensão de cultura enquanto um projeto de sociedade, no nosso caso, com o recorte de classe, ou seja, que sirva ao processo de emancipação humana da classe trabalhadora. A segunda questão, é que não basta boa intenção, é preciso criar as condições materiais necessárias para que a cultura atinja escalas  ampliadas de acessibilidade para as camadas populares, os investimentos em infraestrutura devem promover o direito à cidade como parte do reposicionamento do olhar político, estético,  ambiental e educativo   para apropriação da diversidade e pluralidade cultural e artística, na confluência entre a contemporane...
Annie Ernaux: uma mulher sem vergonha
Literatura

Annie Ernaux: uma mulher sem vergonha

Luciana Bessa* Publicado pela primeira vez em 1997, A Vergonha, é o sexto livro que compõe o projeto literário da escritora francesa Annie Ernaux, que tem o objetivo de vingar sua raça, especialmente, investigar sua própria existência sob o prisma social. Nobel de literatura no ano de 2024, aos 82 anos de idade, graças a sua “coragem e acuidade clínica com que descobre raízes, os distanciamentos e as restrições coletivas da memória pessoal”. Coragem e ousadia são duas palavras que vestem bem autora e obra. O livro traz uma epígrafe do escritor norte-americano Paul Auster retirada da obra A invenção da solidão (1982): “A linguagem não é a verdade. Ela é a nossa forma de existir no universo”. Ernaux afirmará em  A escrita como faca (2023) que se apropriar da linguagem foi a forma ...
Uma política da palavra para os municípios
Literatura

Uma política da palavra para os municípios

Alexandre Lucas* Instituir a política do livro, da literatura e da leitura nos municípios é parte estruturante do Sistema Nacional de Cultura e da Política Nacional para o setor que vem sendo retomada pelo Governo Federal. Planejar de forma intersetorial a cadeia produtiva e fruitiva da palavra é essencial para reoxigenar a economia editorial e a ampliação e o   reposicionamento do olhar social e crítico.  O segmento da palavra é gigantesco: escritores, revisores, designers, produtores, livreiros, pesquisadores, bibliotecários, roteiristas, contadores de histórias, rappers, slammer, compositores, cordelistas, programadores, ilustradores, empresários, gestores, etc.  Instituir uma política para o setor é democratizar o acesso da palavra como instrumento de const...
UM FILME SOBRE VOCÊ
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UM FILME SOBRE VOCÊ

A minha mão atravessaO teu ser de imensidãoO meu olhar te encontraNo meio da multidãoGrita, Grita, GritaTua voz me ecoa refrão Vamos construir um roteiroOnde dentro dos rabiscosO escrito é leve e cheio de emoçãoOnde cada cena seriaO desdobramento do coraçãoAo bater Claquete Acelera um turbilhãoMinha mão atravessaO teu ser de imensidão Sente, sente, senteNão é mais tua solidãoÉ a vontade de ter alguém por pertoNem que seja uma só cançãoUma ficção poéticaUm sonho no meio da escuridãoA minha mão atravessaA tua imensidão Ecoa, ecoa, ecoaO doce oi do teu coraçãoSingeleza tuaDeixa esse atravessamento entãoA minha mão, ela não mais te atravessaEra só vontade do meu coração Um filme sobre você
Almoço de sexta
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Almoço de sexta

Ludimilla Barreira* Era mais um almoço com os colegas de trabalho, daqueles que ela se obriga a ir para socializar melhor com a equipe. Na verdade, sua maior vontade era sentar-se sozinha e comer em silêncio. Mas, como a comida era muito convidativa, recebeu bem a insistência da colega.  Enquanto escutava mais uma piada sem graça, percebeu de relance um olhar depositado em sua direção. Não teve coragem de encarar seu observador; distraiu-se com a conversa da mesa e abstraiu.  Mas outra pessoa percebeu e comentou: “Aquele homem olha para você desde que se sentou na mesa ao lado. Você o conhece?”  A amiga inclinou-se discretamente a cabeça e falou quase sussurrando que era o de cabelo escuro e óculos de grau. Ela arregalou os olhos e sorriu com o canto da boca. Ach...