Literatura

Fuxico para as nuvens
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Fuxico para as nuvens

Alexandre Lucas* Gosto de não olhar para relógio. Que as horas se dilatem. Podemos abrir um vinho, despir à vontade. Ainda não tomamos vinho, café com canela, algumas doses, não importa o que bebemos. Ando me embriagando. Sento, encho um copo de esperança e me calo, enquanto bebo as suas conversas cheias de olhos e mãos. Zonzo, subo na mesa, convoco a eternidade, mesmo que ela demore trinta minutos.  A eternidade é uma embriaguez, prefiro acreditar que ela demora trinta minutos, um pouco menos. Nada é eterno, apesar da discordância. Atravessado pela linha da ternura, fuxico sorrisos para nuvens e declaro que a terra privatizada priva os corpos de liberdade.  Quase hora de dormir. Lembro dos teus olhos verdes e das luas comidas. Um vinho barato, desconheço das uvas e dos ...
Fim
Literatura

Fim

Luciana Bessa* Nascemos para a morte segundo a filosofia do alemão Martin Heidegger. Partindo dessa premissa, a então atriz Fernanda Torres enveredou-se pelo universo literário com o romance Fim (2013), obra de estreia. Trata-se de um romance que tem cheiro e sabor de finitude. A narrativa gira em torno de um grupo de cinco amigos cariocas “de longa data” complementarmente diferentes uns dos outros, mas unidos pelas farras, orgias, traições, bebedeiras, taras, uso de drogas e de viagra. A obra é, na verdade, uma gangorra entre a pulsão de vida (Eros ou sexual) e a pulsão de morte (agressão, Tânatos), já que somos sujeitos de libido. Ambas as pulsões estão sempre juntas segundo o princípio de conservação da vida. O cenário da narrativa é o Rio de Janeiro das décadas de 1960-1970, u...
“O mundo anda tão complicado”
Literatura

“O mundo anda tão complicado”

Shirley Pinheiro* Estou tentando não me sentir sozinha.Mas já é a terceira vez que concluo a mesma série essa semana. E tudo parece tão silencioso. Mesmo no mais profundo caos, uma calmaria perturbadora se lança ao meu estômago, emergindo preocupações que se fortalecem como uma espiral, em minha ânsia “engasturada” de não ser mais.E as ligações tornam-se escassas, enquanto a pressa se expande.Meu medo era não ouvir mais. Gastar o tempo com obrigações demais. Perder (de vez) as palavras. Mas acharam meu fone de ouvido e agora posso voltar a ouvi-los, enquanto me despedaço pelos quatro cantos da cidade. Pra ser sincera, ontem não foi a primeira vez que quase chorei no meio da rua. Não sei se de dor, cansaço, raiva, medo, saudade ou indignação. Talvez tudo e mais um pouco.Talvez nada.Lembr...
O Deus verdadeiro
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O Deus verdadeiro

Francisco Joherbete* Aqueles que falam de DeusPrincipalmente de JeováQue é seu nome verdadeiroE outro não há.São pessoas sábiasQue têm consciência do que falar. Jeová nosso DeusO único verdadeiroQue promete coisas boasPara seus hospedeirosE promete um futuroSeguro e verdadeiro. O Deus do amorDa paz e compaixãoEle quer nosso bemNem precisa de razãoPois ele sabe o que queremosE faz de bom coração. Tudo que precisamosÉ o procurarÉ melhor ir rápidoAntes do tempo acabarSe quiser procurarAcesse o site jw.orgLá ele está. Sobre o autor: Francisco Joherbete *Aluno do 8° ano do Colégio Municipal Pedro Felício Cavalcanti. Gosta de ler poesias e de fazer também. "Abrace sua tristeza".
Terreiro da Lua
Literatura

Terreiro da Lua

Alexandre Lucas* Escrevo um livro de mentiras no tempo da verdade. Deve ser provisória, por vezes intransigente, a verdade é que não entendo nem das razões e muito menos das mentiras.  O amor é sacolejo de invenções, é tão subjetivo e se preenche de condições objetivas para se inventar. Estou nas primeiras páginas. Confesso: escrever nas nuvens é fazer rebuliço. Os sentimentos são escritos cheios de reticências e atrevimentos. Escrevo livros, híbridos de lorotas e histórias comestíveis. Escrever é mandigar, jogar no caldeirão pernas com asas, beijos com estrelas, gritos molhados e noites enlouquecidas. Afinal, a escrita não precisa ser bem comportada e muito menos do lar, ela pode transitar nas encruzilhadas das ruas e das luas, dos incendiários e dos desconhecidos. Escrev...
Mãos e Braços
Literatura

Mãos e Braços

Ludimilla Barreira* Corri para casa. Senti a areia movediça dos pesadelos em que tentava correr e não saia do lugar. Tocava o chão com rapidez, com o desespero da sobrevivência. Enquanto girava a chave para abrir a porta, reclamei das duas voltas da fechadura. A urgência me fez questionar coisas antes impensáveis.  Iniciei a subtração das minhas roupas logo que a porta se fechou nas minhas costas. Tirava peça a peça como se me despetalasse. Ansiava as sensações que somente a água pode proporcionar: limpeza, alívio e esperança. Aquela água fria, que tantas vezes me fez sentir pontadas pelo corpo, ao invés de furar minha pele, me abraçava como salvadora. De pé, silenciosamente, confidenciei àquele líquido as marcas que eram arrastadas a cada gota que encostava em mim e levavam ...
Entre o espetáculo e a aparência… existimos!
Literatura

Entre o espetáculo e a aparência… existimos!

Luciana Bessa * Somos fruto da “sociedade do espetáculo” (Guy Debord), o que faz com que nossas relações acabem se confundindo com mercadorias expostas nas redes sociais. Nesse contexto, a aparência se torna a tônica da existência objetificando e artificializando as relações humanas que deixam de ser vividas em sua essência. Nesta sociedade que cria, edita as regras e os valores é comum o uso de máscaras sociais, como um artifício para se conviver harmonicamente em coletividade, e assim, sermos aceitos e legitimados. A imagem que o sujeito transmite de si é de beleza, força, benevolência, fazendo com que o outro acredite em suas “boas intenções”, na perfeição de suas ações. Via de regra, as imagens transmitidas são, na verdade, ficções criadas por outros que não nós. O Instagram é a ...
Remorso
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Remorso

Francisco Joherbete * Os olhos chegam brilhamCom a tremenda belezaDo teu coraçãoCoração quase pulaCom sua extrema dedicaçãoComo o fazer tudo BeloQue me deixa orgulhosoDa cabeça ao chão. Da sua beleza ao alcançarVida posso terFrases a pensarEm ti, pode crerTudo que passareiAo lado da tenda da belezaNunca quero dormirPara que eu não a perca. De tudo que soisDe tudo que passeiDe tudo que conquisteiNão se compara nem um poucoDo bem que por você que eu conquistei. Vivo a vidaEm ti a pensarSem clarão de remorsoTudo quero ao seu lado conquistarServi-la com amorDe tudo até o fimNão ter volta aqui, até não mais existir. Sobre o autor: Francisco Joherbete *Aluno do 8° ano do Colégio Municipal Pedro Felício Cavalcanti. Gosta de ler poesias e de fazer também. "Abrace sua ...
Entrevista
Literatura

Entrevista

Nágila Freitas* 01. Nágila de Sousa Freitas, filha de agricultores, além de poeta, é dramaturga, Produtora Cultural e Curadora, compositora, professora-pesquisadora e liderança social. Conte-nos como é transitar por tantas áreas do conhecimento? Desde muito cedo tive uma certa projeção para falar de coisas que eu sabia, sentia, mas não sabia que já existiam dentro de uma forma estabelecida pelo dialógico percurso histórico da etimologia. Falo, especialmente, da compressão e dos conceitos das coisas atrelados à criatividade a partir de um cotidiano preenchido de brincadeiras e dores. Trata-se do paradoxal sentimento de ludicidade e realidade que foram moldando o meu estilo literário a um aspecto clássico, mas também rebelde. 02. A relação entre poesia e música sempre foi íntima. Na...
Os provisórios
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Os provisórios

Luciana Bessa* A baiana Helena Parente Cunha (1930-2023) é detentora de uma obra múltipla: cinco livros de poemas, quatro livros de contos, três romances, um infantil e quatro livros de ensaios, com destaque para Aspectos da Literatura de Autoria Feminina na Prosa e Poesia (anos 70 e 80), publicado em 1999. Aclamada na poesia, Helena, “aquela que ilumina”, na década de 1980, publicou o livro de contos Os Provisórios, com trinta textos em uma linguagem fluída, oral e ritmada, cujas personagens centrais são (a maioria) mulheres, com histórias marcadas pelo interditos, pelo controle paterno (“O pai”), violência doméstica (“O olho roxo”), ruptura feminista (“Festa de casamento”), amor obsessivo (“Amor de filha”), relação tóxica (“O triângulo mais que perfeito”), subserviência (“A funcion...