Literatura

Escolha
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Escolha

Ludimilla Barreira* Exausta. Uma palavra com sete letras que descreve a sensação que tenho quando preciso falar, andar, comer. Enfim, existir. Acredito que nosso cérebro possua algum mecanismo de proteção para esse ponto de esgotamento humano, pois me pego refletindo se devo agir quando as situações se põem à minha frente, mas, na verdade, reconheço que tenho energia apenas para ficar parada e observar. Às vezes, me calo; outras tantas, sou silenciada. Afinal, não tenho forças para relutar com energia. Percebo que, em todas as nossas relações, sejam profissionais, familiares ou apenas sociais, fomos constituídas para maternar o mundo, mas isso é extremamente cansativo. Pois, além dos cuidados “maternos” que precisamos dispender a todos que estão ao nosso redor – principalmente os hom...
Livro misterioso
Literatura

Livro misterioso

Francisco Joherbete* No mundo das afliçõesNo caráter demarcadoAcontece tragédiasComo em um atoSeja numa brigaOu num abraço apertado. Poucos conhecemQue um livro pode acabarCom dores e afliçõesEle elimina desde jáBasta você praticarO que nele há. O livro misteriosoMuito fácil de encontrarEle é a BíbliaTudo nela você pode encontrarDesde um simples conselhoAté no Amado sonharSonhar com coisas boasQue você pode passar. Caso queira saberE foliar o que nesse livro háNão hesiteCorra, explore ela desde jáNão desistaNela você vai encontrarComo o fim dos problemasAté o reino você pode identificar. Sobre o autor: Francisco Joherbete *Aluno do 8° ano do Colégio Municipal Pedro Felício Cavalcanti. Gosta de ler poesias e de fazer também. "Abrace sua tristeza"....
Carta para dois meses
Literatura

Carta para dois meses

Alexandre Lucas* Coloquei a bola de cristal, os baralhos e joguei todos os búzios, não obtive nenhuma resposta. O caixa eletrônico do banco foi mais certeiro, apontou extratos e saldos. Esse mês gastei desnecessariamente tentando encontrar a felicidade. Para acelerar o coração: café com canela. Por hoje não te peço em casamento, muito menos proponho te encontrar no final da tarde para o chá, nem depois para jantar, ou um pouco mais tarde para ver a lua.  Vamos nos encontrar sem previsões, mesmo sabendo que você já tem o meu mapa astral, foi fácil, bastou saber que minha aparição se deu às onze de uma manhã, no dia da consciência negra e um ano antes da anistia da ditadura militar. Daqui a pouco, eu devo ir, talvez para padaria, com aquela desculpa que volto, algumas vezes vol...
“Não troco o meu “oxente” pelo “ok” de ninguém!”
Literatura

“Não troco o meu “oxente” pelo “ok” de ninguém!”

Rodrigo França* Na pequena grande cidade de Juazeiro do Norte, uma coisa chama atenção: não são festas pomposas, praias belíssimas (inclusive, nem tem praia), o nome da cidade já ecoa em todo lugar do Nordeste, ou melhor, do país (até geopark há). Pode não ter muitos lazeres que costumamos buscar, mas a rica cultura e religiosidade fez-me ir visitá-la. No dia que cheguei à cidade, alegrei-me com o clima tão espirituoso e o carisma que pairava no ar. Fiz questão de hospedar-me em uma pousada (o que chamamos de pensionato) com o nome “Pousada Nossa Senhora das Dores”. Não há nada mais cultural do que se hospedar em um lugar que leva o nome da padroeira da cidade. A igreja da matriz, tão bela e decorada, estrutura e imagens sacras ricas em histórias. Meu roteiro estava cheio de ponto...
Vamos comprar um poeta
Literatura

Vamos comprar um poeta

Luciana Bessa* É uma crítica ao automatismo e mecanização da vida e das relações humanas. Mas é também um convite ao consumismo afetivo em um mundo distópico. Trata-se de uma poesia escrita em formato de prosa em que o autor, Afonso Cruz, nos apresenta uma família - pai, mãe, filho, filha - cartesiana, que acaba de adquirir um exemplar de poeta. Na sociedade em que a narrativa acontece, que facilmente poderia ser a nossa, as pessoas são identificadas por letras e números “B79”, e somente as profissões geradoras de lucro são valorizadas.  Em contrapartida, a subjetividade e a individualidade são colocadas em segundo plano. Até mesmo as expressões conotativas, “Maça do rosto” e “Apertar o cinto” são consideradas esquisitas e incompreensíveis.  A narrativa-poética gira em t...
O trote
Literatura

O trote

Ludimilla Barreira* Lembro que tinha por volta de onze anos de idade, morava na mesma rua em que a minha melhor amiga na infância, Laura, e, naquele tempo, atender o telefone fixo de casa era a maior diversão. Por isso, nos revezamos nessa tarefa para ter oportunidade de sempre falar com alguém pelo aparelho e quem sabe ter motivos para rir de algum trote, o que era muito normal de acontecer.   Em uma das vezes, ficamos brincando próximo ao telefone da casa dela e finalmente ele tocou, para a nossa alegria não havia nenhum adulto por perto, nem deixamos tocar muito e a encorajei a atender, ela nem precisava de muito incentivo, entre nós duas ela sempre foi a mais atrevida. Para nossa surpresa era uma ligação errada, nem lembro quem aquela pessoa procurava, mas como éramos m...
Entrevista com Karla Jaqueline Vieira Alves
Literatura

Entrevista com Karla Jaqueline Vieira Alves

Karla Jaqueline Vieira Alves* 01 - Karla Jaqueline Vieira Alves, Mulher Preta do Cariri cearense, além de mãe, é poeta insubmissa, anticolonial e libertária. Como se deu seu encontro com a leitura, especialmente, com a poesia? Eu aprendi a ler na escola, como a maioria das pessoas letradas em nosso idioma institucionalizado, mas, o meu verdadeiro encontro com a leitura se deu na rua através das placas, letreiros em fachadas de prédios, frases escritas nas placas dos caminhões de Romeiros, porque os meus primos andavam comigo perguntando o que estava escrito e eu os informava, momento este em que absorvia o sentido das palavras. Sabendo que eles continuariam a me perguntar quando novamente andássemos juntos pelas ruas, eu me adiantava lendo tudo o que por elas havia escrito, inclusive...
Sou fruto do trabalho do professor
Literatura

Sou fruto do trabalho do professor

Luciana Bessa* Passei a semana inteira pensando em todas aquelas pessoas que contribuíram para que eu seja a mulher que sou hoje: 1)Preocupada com o meu jardim e não o do meu vizinho; 2) Atenta a situação político/econômica/educacional/climática do meu país; 3) Pessimista-otimista, afinal, a sociedade cobra muito e te dá pouco; 4) Apaixonada pela leitura e pela literatura, ou por qualquer outra coisa que faça vibrar meu coração; 5) Casula, pois ficar comigo mesma “me faz tão bem”; 6) Teimosa, quando acredito que estou certa e, geralmente, estou; 7) Determinada, porque sonho foi feito para ser realizado; 8) Prática já que é preciso descomplicar esse cotidiano feito de montanhas russas; 9) Platônica, embora quisesse ser aristotélica; 10) Leal comigo e com o o...
Esse frio que queima
Literatura

Esse frio que queima

Amelie Alves* Esse tal amor fervente, conhecido por poucos, mas desejados por muitos, infelizmente não atinge a todos. Já cheguei a experimentar o amor, mas ele queimava, ARDIA! mas na pior das hipóteses, era um amor tão frio que doía. Pior que amores não correspondidos, trabalhos mal sucedidos e muito mais amargo do que rancores muito bem guardados. Seu amor dói, machuca, e eu espero nunca mais revê-lo.  Tão mais angustiante de que se afogar e não ter uma mão pra lhe puxar, não sentir um resquício de ar em seu peito, você só deseja acordar desse pesadelo. E é assim que sua pessoa mostra a minha alma, o que seria um coração petrificado. Me refiro a sua identidade como "pessoa" porque eu diria, que nem mais uma alma lhe habita. Sobre a autora: Amelie Alv...
Bilhete para noites de solidão
Literatura

Bilhete para noites de solidão

Alexandre Lucas* Cercado de Oscar Niemeyer. Noite distante de casa, próximo de instantânea liberdade. Sento com a escritora, num quiosque qualquer, afinal Brasília se veste de formas desconcretas e também sem paletós.   A deputada negra, sapatão e comunista, do Rio Grande do Sul, estava ao lado, trocamos algumas palavras e uns abraços, estávamos no nosso território.   O músico e professor contava suas travessias do Brasil profundo, agora residia em Tocantins. A escritora era de São Paulo.  Desgustamos na mesa sonhos, cervejas e carne.  Lia a boca da escritora para compreender sua língua, enquanto nos abarrotávamos de literaturas e processos criativos.   Tateava entre as palavras o seu rosto e sua cabeça raspada. Gritava em silêncio a poes...