Literatura

Canções de chegada e despedida
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Canções de chegada e despedida

Alexandre Lucas* Tocava gemidos. A lua testemunhava o vazio da escuridão. Preenchidos de instantes devorava a fome, a sede e o vácuo. O vácuo, o vácuo. Tenho que parar por aqui. Ponto final. A lua não deixa, avisa todas as noites da sua imensidão e do seu brilho.  Tocava gemidos na parede esquecida, no banco e na cama de pouco espaço. Desenhava com a ponta dos dedos o carinho e a solidão. Nos encontramos, quase que por acaso, quase. Estava quase sóbrio, quase bêbado. Sentia sua língua ansiosa e decidida, era isso que queria, mas já não sabia os caminhos, os meios e a disposição.  Amanhã, talvez, as marcas das tuas mordidas e unhas tenham desaparecido, como as nuvens que estão mudando a cada olhada. Talvez os gemidos sejam outros, outros e outros, ou mesmo sejam dor. Aind...
“Espelho, espelho meu, existe alguém mais bonita do que eu”
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“Espelho, espelho meu, existe alguém mais bonita do que eu”

Luciana Bessa* A procura pela beleza existe desde a Antiguidade, quando se criavam óleos e banhos aromáticos, quando se obrigavam as mulheres usarem espartilhos sob a desculpa que realçaria sua feminilidade e diminuiria sua cintura, quando as incentivam a terem uma alimentação frugal para serem magras, ou mesmo, quando precisavam usar sapatos pontudos e longos, causando-lhes lesões. Lendo contos de fadas “Branca de Neve e os Sete Anões”, em que uma rainha manda matar sua enteada, porque simplesmente ela era dotada de beleza; assistindo a filmes, suas inúmeras versões, refilmagens, adaptações, em que a beleza estava em primeiro lugar e nada mais importava, confesso a vocês: fiquei com medo da beleza.  Talvez, por isso, desde a adolescência, trago comigo uma frase do poeta Mede...
Flora e a lamparina
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Flora e a lamparina

Tay Oliveira* A luz se apagouA menina logo estranhouQuando ligou os elétricosE nada mais funcionou E agora minha gente?O celular descarregouVamos ficar no escuroJá que a luz se apagou? Sua vó logo correuPegou o gás e o pavioVeio trazendo na mãoAlgo que ela nunca viu Que negócio é esse vovóQue parece um funil?Ficou bem assustadaSua avó logo sorriu Isso aqui é lamparinaNão precisa recarregarBasta só riscar um fósforoPara ela funcionar Flora olhou com estranhezaQuando o fogo dela saiuDeixando a casa iluminadaCoisa interessante nunca viu Era a lamparina nossa luzQuando a noite já raiavaContava sua vóComo aquilo funcionava Flora logo a encaravaE muitas coisas questionavaComo fazia a tarefa de noiteSe não tinha luz, não enxergava? A lamparina, dizia a avóEra o que nos ...
O rio que nos abraça
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O rio que nos abraça

Alexandre Lucas* O rio assimétrico desenha vaginas no seu percurso. As águas caminham transbordando música. Os pássaros cantam e desaparecem entre as árvores. Mastigo algumas sementes e me cubro de sol e sombra.  Sigo as vaginas do rio. Procuro alguns minutos de silêncio dentro dos barulhos que habitam os meus dias. As águas me atravessam acolhendo os meus passos.  Verde por todos os lados, mas nem tudo é esperança. Nenhuma lasanha por aqui, nem mesmo um simples macarrão. Água na boca.  Talvez tenha que andar mais. Hoje, apenas os desenhos do rio.  A folha desce sendo seu próprio barco nos braços rio.  Molho a cabeça. Escorro entre as pedras e as águas para tentar espatifar os pensamentos petrificados. Sobre o autor: Alexandre Lucas ...
Despeje poesia na carne
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Despeje poesia na carne

Alexandre Lucas* Poesia com carne, um pouco de vinho. A lucidez é uma loucura. Costurava a pele com respiro e algodão. O suor escorria como banho. Teus olhos de pérola me davam sede. Saímos com marcas que as lembranças desejam. Já perdi a conta das camas, dos muros e da tentativa de ser feliz. Estamos em trânsito, em transe e transbordando de alguma coisa, buscando a distância do frigorífico, onde as carnes estão mortas e não existem trocas. Quero a poesia dos teus olhos e tua língua descrevendo exclamações e vírgulas. A gramática do corpo é marginal, cheia de doces atritos, alguns rios, erupções, riscos e outros acréscimos da escrita dos corpos. Um gole de reticências, enquanto lembro da maestria da poesia da tua dança e do teu canto indecifrável. Catamos nossa bagunça, sem a mão...
Orgulho de ser Caririaçuense
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Orgulho de ser Caririaçuense

Cícero José Oliveira Neves* Peço licença a vocêsNesse momento fielPara escrever es versosEm forma de um cordel Em forma de um cordelPorque é maravilhosoFalar de CaririaçuMe deixa muito orgulhoso A vocês que são leitoresQuero dar meus parabénsPois a cidade aniversariaO povo dela também Estes versos que eu faloÉ para homenagearUma linda cidadeNo interior do Ceará O clima dela é gostosoAs atrações são legaisNo dia 18 de agostoEla faz aniversário Por causa do clima bomMuitos vêm para cáE com essa finalidadeJá não querem mais voltar Foram os índios caririsOs primeiros habitantesDessa terra acolhedoraQue recebeu os imigrantes É feliz quem nela moraE todos que ela pertenceO motivo que me orgulhaDe ser Caririaçuense Para nossa cidade vemMuita gente visitarE dita pelos tu...
Vai, mulheres! Ser cuidadora na vida
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Vai, mulheres! Ser cuidadora na vida

Quando o poeta mineiro, autor de Alguma Poesia, nasceu na década de 1930, ficou registrado no Poema de Sete Faces: “Quando Nasci, um anjo torto/desses que vivem na sombra/ disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida”. Ao longo da História, à medida que nasciam, penso que esse mesmo anjo torto (ou um amigo dele, eu não sei), disse: Vai, mulheres! Ser cuidadora na vida. Não satisfeito, o anjo torto, na tentativa de conceber mulheres “perfeitas”, ainda sentenciou: 1) Ficarás restrita ao ambiente doméstico; 2) Não frequentarás os bancos escolares; 3) Serás uma criatura frágil que terá no sexo oposto o seu protetor; 4) Casarás como forma de inserção social; 5) Gerarás filho para manter sua descendência; 6) Cuidarás de tudo e de todos: marido, filhos (filhos dos filhos), parentes, etc. “Quan...
Carta para lembrar da verdade
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Carta para lembrar da verdade

Alexandre Lucas Filho, Ando morrendo de vez em quando. O mundo anda perigoso. A palavra mata mais que fuzil, não é exagero. A palavra ordena a morte e o sepultamento da esperança. O amor à humanidade é contestado. A mentira se espalha mais que a poeira e assim fica difícil de compreender a verdade. Ainda estou vivo e mortinho da Silva. Tenho alguns desaforos para entregar. Preciso acolher os sonhos alheios e os meus, já que os assassinos estão de plantão e vestem a balança da justiça. Filho, algo difícil na vida é tecer a verdade. Minta só quando for para sobreviver, assim como fez a guerrilheira urbana que se tornou presidenta do Brasil, mentiu como ato heroico para salvar vidas, inclusive a sua. Filho, essa conversa de morte é só para reafirmar o desejo de viver e de const...
III Coletânea do Nordestinados a Ler
Literatura

III Coletânea do Nordestinados a Ler

Luciana Bessa Nascido há três anos, o Nordestinados a Ler: Blog Literário é uma ferramenta para compartilhar a literatura produzida na região Nordeste, especialmente aquela produzida por mulheres. É sabido que o sexo feminino ficou privado, durantes décadas, de frequentar os bancos acadêmicos o que fomentou a escrita masculina, especialmente de homens brancos e de famílias privilegiadas. As mulheres, ao invés de criadoras de suas narrativas, tornaram-se objetos delas. Durante décadas, viram-se pintadas de bruxas, frágeis, loucas, indolentes, que precisavam de um cavalheiro para serem salvas, por meio do casamento, em uma sociedade cruel e caótica. Mesmo quando as mulheres tiveram acesso à caneta e ao papel, ficaram invisibilizadas pela crítica especializada que não reconheciam/...
Borracha
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Borracha

Maykon Ferreira Gomes Pereira Objeto que originalmente, Tem uma única finalidade. Apagar tudo o que está errado, Com a mão vai apagando, com muita agilidade. Ela é e sempre será borracha, Mesmo com formas e cores da nova tendência. Mas elas mesmo assim, Não perderão a sua linda essência. Ela por sua vez, Nos ensina a resiliência. Pois entre erros e acertos, Se exige muita persistência. Outra coisa percebemos, Não importa profissão, será sempre dependente. Onde quer que você vá, em alguns deles, Ela lá estará presente. Outra coisa fenomenal, É a sua capacidade. De ter a sua elasticidade, E voltar a forma original. Sobre o autor: Um jovem de apenas 18 anos,  apaixonado pela literatura, ama o jornalismo e luta pelas barreir...