Literatura

Escuto absurdos
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Escuto absurdos

Alexandre Lucas Tento escrever. As palavras pulam e me desequilibro. Ainda não são sete horas da manhã. O café está pronto desde às cinco e as palavras sacodem como açoites.  Fecho todas as janelas e portas, mas mesmo assim, as palavras me invadem. Fico parado, tentando escutar absurdos. Os absurdos não param.  Já não escuto a voz da criança. A mãe impera, possivelmente solitária, cansada, transtornada e cheia de feridas das vielas estreitas em que a alma passa se rasgando. Só escuto a mãe.  A mãe prossegue. Ouço alguns soluços. A metralhadora dispara: Você vai apanhar, sua lesada, deixa de ser sebosa.   Saio sem tomar café. Entalado, vomito esse texto.
Ambiguidade atroz
Literatura

Ambiguidade atroz

Fabiano Santiago Lopes Que estado de coisas, deveras conturbado convívio.Carga explosiva emanada da casa que eu vivo.É nesse estreito que eu tento sobreviver,um beco escuro sem saída,encurralado sem saber o que fazer…E nesse momento, memórias só me levam a você.Por que não está comigo aqui e agora,por onde andará você, aquele de outrora?.como é sufocante não inalar o vento da pazConviver com outros numa ambiguidade atroz.que sentimentos podem surgir em mim?onde há segurança e a estabilidade?Como sentir alegria com propriedade,nessa pequena, ilaria e controversa sociedade.Eu tento, me esforço e nem com lágrimas nos olhos, eu acho.Sigo vivendo e fingindo que me encaixo,ponho um personagem e me disfarçomas se sempre me pergunto: por que tenho que viver assim.Nesse ambiente tão  pesado e ru...
Então é Natal e o que você fez?… Amigo, eu me desesperei!
Literatura

Então é Natal e o que você fez?… Amigo, eu me desesperei!

Shirley Pinheiro “Sei que não é possível dizer todas as coisasNesse feliz ano novo que a gente ganhouMas só falta algum tempo para 1-9-8-4Agora estou em paz: o que eu temia chegou”(Clamor no Deserto, Belchior, 1977) Sei que assim falando você pode pensar que esse desespero é moda em 2023 e sim, ando mesmo descontente e, desesperadamente, gritei em português, em inglês e, se soubesse, gritaria até em tailandês, mas meu vocabulário nessa língua se resume aos nomes dos poucos personagens e atores dos BLs e GLs que assisto e que aprendi. 2023 foi duro, meu amigo, mas o que posso dizer é que, aos trancos e barrancos (e desesperos), nós sobrevivemos e a que custo, não é mesmo? E eis que chegam às vésperas de natal e não consigo deixar de fazer uma retrospectiva de tudo o que aconteceu dur...
Livraria Sociedade Literata realiza roda de conversa com Victor Vladmir sobre empoderamento feminino na arte nesta sexta-feira (22) às 18h30 na Biblioteca do Coletivo Camaradas
Cariri, Cultura, Literatura, Notícias

Livraria Sociedade Literata realiza roda de conversa com Victor Vladmir sobre empoderamento feminino na arte nesta sexta-feira (22) às 18h30 na Biblioteca do Coletivo Camaradas

Foto: Livraria Sociedade Literata A Livraria Sociedade Literata realiza, nesta sexta-feira (22), às 18h30, roda de conversa na Biblioteca do Coletivo Camaradas. Este é o primeiro evento do projeto Literação, e possui como tema “O empoderamento feminino na arte é uma responsabilidade somente das mulheres?”, com a participação de Victor Vladmir, autor da HQ “Mulheres Brutais”. Essa roda de conversa visa criar um espaço de discussão política sobre os temas da literatura produzida no Cariri atualmente, o papel político dos artistas, além de promover obras e realizar suas vendas durante a ação. Victor Vladmir, convidado do encontro de sexta-feira (22), é artista visual, professor de artes da rede básica de ensino de Juazeiro do Norte, quadrinista independente atuante no Coletivo Sa...
O coração foi consumido
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O coração foi consumido

Alexandre Lucas Comi o coração sem pressa e no exercício da fome. Bebi da lua e do desequilíbrio da noite em goles gelados. Embriagado fiz do profano, o sagrado. Subir aos céus em mastro firme. Toquei as estrelas e escorreguei na boca. Taquei fogo na noite. Fui comido pelo coração. Toquei tambor e devo ter gritado os versos mais sacanas. A madrugada não era para ser guardiã do silêncio. A carne foi socada, prensada, roçada, mordida, avermelhada, erguida, acarinhada, desenhada, cheirada, beijada, sentida. As erupções, os tremores, os rios efêmeros e as paisagens corporais se refizeram como versos selvagens costuradas com lãs. A cada instante se consumia forme e prazer sem sobras para o dia seguinte. Manhã. O caldo reforçava a gentileza da carne e a liberdade ensaiava voos....
Assassinam a minha mãe
Literatura

Assassinam a minha mãe

Alexandre Lucas Disseram que mãe queria me matar. Acredito que seja verdade e estou do lado dela. Nasci prematuro, quase não vingava na vida. Prematura foi mãe e pai. Ela, 15 anos e ele, 14. Parece que nesta idade, a gente não acredita muito que é capaz brotar vidas. Na verdade, desde cedo, nos ensinam a não acreditar em muita coisa, principalmente em nós mesmos. Fui jogado no mundo, sem muita opção. A casa de vó foi morada dos medos, das inseguranças, da certeza que não podia gritar por pai e mãe. Vó era briguenta, mas tinha um almoço bom e me levava ao médico. Pai e mãe saíram pelo mundo tentando conseguir algumas fatias para sobreviver, depois voltaram, com menos fatias do que esperavam. Ainda senti raros sorrisos e afagos. Pouco tempo, logo, se desfizeram: o amor é isso, uma ...
Outras Poesias e Além do Silêncio
Literatura

Outras Poesias e Além do Silêncio

Luciana Bessa Nerina Castelo Branco, escritora piauiense, influenciada pelos poetas concretistas, lançou no ano de 1963, a obra Poesias Modernas,  aqui no Ceará, onde veio estudar Direito. No ano seguinte,  em 1964, já em sua terra natal, Teresina, foi editado o volume II de Poesias Modernas, reafirmando que sua produção literária rompe em definitivo com uma poesia academicista. Depois formou-se em Filosofia, tornou-se professora emérita da Universidade Federal do Piauí (UFPI) e membro da Academia Piauiense de Letras, ocupando a cadeira de nº 35. A poesia de Nerina Castelo Branco tem como enfoque a essência humana com suas dores ( Poema “Minhas mãos”), seus sonhos (Poema “Salvar os sonhos”) e seus questionamentos (Poema “Reflexões”). Poesia reflexiva que expõe a se...
Um bom batedor
Literatura

Um bom batedor

Alexandre Lucas Tenho linhas que não me confortaram. Escrevi com cacos de vidro o que não conseguia pronunciar. Trago nos braços a distância do abraço e as cicatrizes de pai. Nunca fui boa de briga, mas em casa, as tapas eram constantes. Os gritos, os choros e o sangue se faziam mais triviais que o arroz e o feijão. Mãe odeia pai. Ele sempre foi agressivo. Eu guardada no silêncio, plantei dentro de mim o que mais escutava: "você não vale nada". De tanto ser expulsa da alegria, segui os conselhos de pai que sempre me dizia: "sai daqui!".  Cada um agora segue seu lado.  Mãe se casou. Tenho uma madrasta amorosa, adora me abraçar, a cada instante faz presentes com suas mãos para transbordar meus sorrisos.  Pai já está no segundo casamento, mora distante, foi preso algumas vezes, c...
Luiz Gonzaga, “minha sanfona, minha voz, o meu baião”
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Luiz Gonzaga, “minha sanfona, minha voz, o meu baião”

Shirley Pinheiro “Modéstia à parte, mas se eu não desafinoDesde o tempo de meninoEm Exu, no meu sertãoCantava solto que nem cigarra vadiaE é por isso que hoje em diaAinda sou o rei do baião” Ser nordestino, como disse o poeta, é uma sorte arretada, mas isso implica também, no enfrentamento de vários preconceitos e estereótipos, de violência, de pobreza, de seca, dentre outros. Mas se tem uma máxima nordestina que muito me agrada é que todos nós já nascemos escutando Luiz Gonzaga. Não importa se você prefere rock, pop ou samba, se nasceu no Nordeste, com certeza conhece o Rei do Baião e, provavelmente, gosta de suas músicas. Dono de uma voz inconfundível, Luiz Gonzaga do Nascimento foi o maior responsável por difundir a cultura nordestina pelo resto do país. De chapéu de couro ...
Os vazios não nos habitam
Literatura

Os vazios não nos habitam

Alexandre Lucas Dedilhar teus lábios como se escrevesse sabores. Sentir o suspiro com um manifesto desesperado de bem querer. Revirar os lençóis, os pudores e tocar o terremoto que se faz a partir do teu ventre, depois sair como quem viu imagens nas nuvens, inesperadas e passageiras. São cinco horas da manhã. A cama está vazia como todos os dias.  A rede balança, enquanto tomo coragem para iniciar os trabalhos. Tive sonhos de carne e intervalos: acordei quase mar, sol e lua. Acordei. Maiakovski estava encostado na estante. Os trabalhadores distantes da poesia, mas os sonhos existiam, os de ontem e os de amanhã. É hora de sair. Hoje, a calça está mais apertada e vou de mochila, carrego a fome e os sonhos paridos da ausência, porque nunca estamos vazios.