Do signo de câncer e suas memórias afetivas: Zélia Gattai

Émerson Cardoso

Em Anarquistas, graças a Deus, Zélia Gattai (1996, p. 13)[1] comenta: “Pela minha certidão de nascimento, sou nascida a 4 de agosto. Além do mês e dois dias de lambujem ganhos, passei também a ser dona de dois signos do zodíaco: oficialmente, sou de Leão; na realidade, de Câncer. Adotei os dois”.

Filha de imigrantes italianos, Zélia Gattai nasceu em São Paulo, em 07 de julho de 1916, e transformou-se em um dos principais nomes no Brasil quanto à produção de livros de memórias. Embora seu pai, Ernesto Gattai, tenha feito o registro dela como nascida em agosto, o que faria dela uma leonina, a data correta de seu nascimento a coloca no rol das nascidas sob o signo de Câncer.

Câncer, o quarto signo zodiacal, alude ao caranguejo[2] que a deusa Hera enviou para fustigar Hércules. Hera sempre teve que lidar com as traições de seu esposo Zeus e, sendo Hércules fruto da relação dele com a mortal Alcmena, tentava de todas as formas destruí-lo. Nessas investidas da deusa ciumenta, ela enviou um caranguejo gigante que Hércules, em seus doze trabalhos, teve dificuldades para matar, mas o conseguiu. Como forma de honrar o caranguejo que a ajudou, Hera o transformou em uma das constelações.

Sensível, intuitivo, protetor e apegado à família, quem nasce entre 21 de junho e 21 de julho é desse signo que, regido pela Lua e do elemento água, representa o quarto signo zodiacal. Quem é desse signo é adaptável e emotivo, mas tende a ser controlador e dramático.

Zélia Gattai nasceu no segundo decanato do signo. Os nativos desse decanato apresentam maior intensidade emocional, profundidade nas relações e tendência para mudanças. Quem sabe se não foi por isso que ela se tornou essa construtora de memórias capaz de contar as experiências vividas com tantos detalhamentos e intensidades. Além disso, estamos diante de uma mulher que: casou duas vezes, teve a experiência da maternidade, envolveu-se com atividades políticas, recebeu inúmeros prêmios, viveu notável atividade intelectual e tornou-se membro da Academia Brasileira de Letras, da Academia Ilheense de Letras e da Academia de Letras da Bahia.

Dentre outras obras, ela publicou: Anarquistas, graças a Deus (1979), Um chapéu para viagem (1982), Pássaros noturnos de Abaeté (1987), Jardim de inverno (1988), Crônica de uma namorada (1995), A Casa do Rio Vermelho (1999) e Jorge Amado: um baiano sensual e romântico (2002).

Dentre as obras da autora, destacamos seu livro de estreia Anarquistas, graças a Deus, que é um dos livros memorialísticos mais conhecidos no país e que, em 1984, foi transformado em minissérie pela Globo. Nesse livro, é contada a saga da família Gattai por ocasião do seu processo de imigração. A família veio da Itália para o Brasil e passou por diversas experiências em busca de um novo horizonte de possibilidades em um universo em tudo diferente da terra de onde vieram.

No textoLembranças de uma anarquista chamada Zélia Gattai, Luciana Bessa (2021)[3] afirma que:

A leitura de “Anarquistas, graças a Deus” nos possibilita conhecer: 1) A gênese do movimento anarquista no Brasil; 2) O pensamento liberal do imperador Dom Pedro II, que concedeu terras e apoiou a primeira colônia (“Cecília”) anarquista no país; 3) A prática de leitura de uma família anarquista [“Germinal”, de Émile Zola (1840-1902), “Os trabalhadores do mar”, de Victor Hugo (1802-1855), “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri (1265-1321)]; 4) as lutas anarquistas e comunistas por um mundo mais justo; 5) o movimento feminista no Brasil etc.

Por esse comentário, é possível observar que a leitura de Anarquistas, graças a Deus proporciona um mergulho em contexto histórico e político do Brasil que merece atenção, e, nesse quesito, talvez houvesse conteúdo suficiente para análise aprofundada, mas o que mais instiga nessa obra é o fato de que a autora, uma canceriana típica, dispõe de uma capacidade impressionante de rememoração ao apresentar a história de sua infância ao lado da família. Assim, ela traz à tona acontecimentos entre históricos (a criação e o final da Colônia Cecília, idealizada por Giovanni Rossi, a menção à execução dos anarquistas Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti, a Revolução Tenentista de 1924 e o Estado Novo etc.) e cotidianos (como a ida ao cinema com Wanda, Vera e Maria Negra, também a ida ao circo ou ao Parque Antártica, assim como os passeios de bonde etc.) sempre narrados com linguagem fluida, simples e comovente.

Além das peripécias envolvendo seus pais Ernesto Gattai e Dona Angelina, são peculiares as figuras femininas que a autora apresenta em seus relatos. Além de Wanda e Vera, muito mencionadas por estarem em seu convívio familiar imediato, é pertinente destacar, nesse caso, os nomes de: Maria Negra (pessoa que viveu na casa dos Gattai e criou uma relação afetiva com a família: ela aprendeu a ler com Wanda, casou-se, teve filho e foi-se embora para o interior); Dona Vicenza (uma curandeira conhecida por ser intérprete de sonhos); Zina (a menina dos cabelos encaracolados, amiga de infância da autora, que pode ter sido sepultada viva); Dona Luzia (que apareceu na casa dela com toucinho debaixo do braço querendo fazer uma simpatia portuguesa para salvar o sobrinho Sílvio, que consistia em oferecer pedaços de toucinhos a três cães); Carolina (a professora que ganhou “trinta e tantas latinhas de pó de arroz” e que foi a primeira que Zélia Gattai ouviu utilizando a palavra “anarquia” para designar desordem ou algo negativo), dentre outras.

Esse livro traz lembranças do convívio da autora com: os pais, os familiares, os vizinhos, o casarão antigo da Alameda Santos, número 8, e com uma cidade em pleno desenvolvimento, isto é, propensa a mudanças vertiginosas como as que são descritas no final do livro. Estamos diante de uma impressionante e prodigiosa memória capaz de apresentar detalhamentos que dimensionam o universo entre lírico e realista de uma família de imigrantes vivendo no Brasil do início do século XX. Este é, sem dúvidas, um livro notável — e que deve ser visitado e revisitado sempre.

Para concluir, gostaria de compartilhar uma fala que a memorialista atribui a sua mãe, Dona Angelina (Gattai, 1996, p. 143): “Quanto mais belo seria o mundo se fosse abolido o poder do dinheiro, minha filha! Um mundo em que todos pudessem se educar. Em que não existissem misérias (eu pensei em Maria Negra)! Um mundo sem armas, sem guerras. Em que existisse apenas amor!” Faz sentido e, diga-se de passagem, o que prepondera nessa obra, tão bem escrita, é o amor de uma filha de imigrantes disposta a voltar no tempo para fazer reviver seu paraíso infantil que, com essa obra, jamais será perdido.

Salve Zélia Gattai!

REFERÊNCIAS:

BESSA, Luciana. Lembranças de uma anarquista chamada Zélia Gattai. 2021. Disponível em: https://nordestinadosaler.com.br/2021/07/lembrancas-de-uma-anarquista-chamada-zelia-gattai/. Acesso em: 25 ago. 2025.

GATTAI, Zélia. Anarquistas, graças a Deus. 9. ed. São Paulo: Record, 1996.

GRIMAL, Pierre. Mitologia grega. Tradução de Rejane Janowitzer. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2009.


[1] GATTAI, Zélia. Anarquistas, graças a Deus. 9. ed. São Paulo: Record, 1996.

[2] GRIMAL, Pierre. Mitologia grega. Tradução de Rejane Janowitzer. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2009.

[3] BESSA, Luciana. Lembranças de uma anarquista chamada Zélia Gattai. 2021. Disponível em: https://nordestinadosaler.com.br/2021/07/lembrancas-de-uma-anarquista-chamada-zelia-gattai/. Acesso em: 25 ago. 2025.

Sobre o autor:

Émerson é de Juazeiro do Norte/CE. Pesquisador, professor e escritor. São de sua autoria: Breve estudo sobre corações endurecidos (2011)os cordéis A Beata Luzia vai à guerra (2011) e A artesã do chapéu ou pequena biografia de Dona Maria Raquel (2012); A Revolta de Antonina (2015), A dança das contundências (2017), O Casarão sem Janelas (2018) e  O baile das assimetrias (2021).