
Professora, pesquisadora, poeta, contista, romancista, ensaísta, com graduação, mestrado e doutorado na área de Letras, Conceição Evaristo tem construído uma carreira das mais sólidas de nossa Literatura Brasileira Contemporânea.
Sob o Signo de Sagitário, este signo que reivindica liberdades e aprofundamentos existenciais, Conceição Evaristo nasceu em 29 de novembro de 1946, em Belo Horizonte–MG. Oriunda de família que enfrentou dificuldades socioeconômicas diversas, teve que trabalhar desde cedo. Ela viveu na extinta Favela do Pendura Saia, em Belo Horizonte, e precisou, do mesmo modo que sua mãe, trabalhar como empregada doméstica. Foi pelo estudo, porém, que pôde transformar sua realidade: ela mudou-se para o Rio de Janeiro, fez concurso público e tornou-se Professora. Depois, graduou-se em Letras e, no contexto universitário, teve contato com os Cadernos Negros, que lhe possibilitaram, em 1990, publicar seus primeiros textos literários. Como a busca pelo saber sempre esteve em seu ângulo de visão, ela fez mestrado, doutorado e tornou-se Professora da Universidade Federal Fluminense–UFF.
Assim, desde o romance Ponciá Vicêncio (2003), sua obra de estreia, Conceição Evaristo integra um grupo de artistas da Literatura Brasileira cujas obras apontam para um olhar contra-hegemônico, isto é, esses artistas reivindicam o protagonismo de pessoas cujas existências foram secundarizadas e, quando estavam em pauta, eram representadas, por vezes, a partir de visões estereotipadas. Com isso, a pessoa negra (e, no caso de Conceição Evaristo, especialmente a mulher negra), torna-se protagonista, exerce o direito à voz, pode expressar-se, apesar dos desafios provenientes de uma sociedade lastreada por construtos sociais patriarcalistas e por práticas de racismo.
Nessa perspectiva, quando o cânone literário brasileiro passou a ser problematizado, sobretudo por essas vozes que buscavam espaços em contexto no qual preponderava a atuação de grupos sociais privilegiados, surgiram novas abordagens em torno do fazer literário, como é o caso da Literatura afro-brasileira. Conceição Evaristo, no ensaio Literatura negra: uma poética da nossa brasilidade, afirma que:
“Nomear o que seria literatura afro-brasileira e quais seriam os seus produtores é uma questão que tem suscitado reflexões diversas. Há muito, um grupo representativo de escritores (as) afro-brasileiros (as), assim como algumas vozes críticas acadêmicas, vêm afirmando a existência de um corpus literário específico na Literatura Brasileira. Esse corpus se constituiria como uma produção escrita marcada por uma subjetividade construída, experimentada, vivenciada a partir da condição de homens negros e de mulheres negras na sociedade brasileira” (Evaristo, 2009, p. 17).
Consideramos que Conceição Evaristo é uma das maiores representantes dessa literatura que se pretende um universo em desconstrução. Embora tenhamos desenvolvido novas perspectivas para o modo como a criação literária é tratada no país, faz-se necessário considerar que ainda temos grandes desafios a enfrentar. Assim, com sua capacidade de criar uma linguagem bem delineada para tratar de temáticas prementes da sociedade brasileira, ela tem vivido experiências marcantes quanto a reflexões sobre: racismo, violência, memória, desigualdade social, papel social da mulher, sobretudo da mulher singularizada por ser negra.
Conceição Evaristo, que tem sido merecidamente reconhecida por sua arte, é uma típica nativa do Signo de Sagitário. Sendo do primeiro decanato do signo, ela traz a inteligência, dedicação, comunicação intelectual e artística. Sua obra, considerada das mais proeminentes do país (sobretudo pelo que perscruta com sensibilidade, reflexão e liberdade), apresenta histórias em contextos entre complexos e líricos que confirmam sua capacidade de reunir forma e conteúdo na produção literária.
A propósito, as pessoas desse signo são: inteligentes, comunicativas, destemidas, intuitivas, sensíveis, divertidas, generosas, aventureiras, autênticas, otimistas e tendenciosas à expressão artística. Ao mesmo tempo em que são joviais, intensas na expressão dos sentimentos e livres, elas podem ser: exageradas, dispersas, descomedidas, excessivamente insatisfeitas, entediadas, críticas, indolentes, pouco afeitas ao apego afetivo, agressivas e inconsequentes.
Sabe uma curiosidade literária pertinente para nosso debate sobre esse signo que é o símbolo da cultura e da rapidez na assimilação de conhecimentos plurais? Há uma quantidade imensa de mulheres nativas desse signo que são do mundo das artes literárias (mas que são também da ciência, política, dramaturgia, dança, escultura, pintura etc.). Para ficarmos em alguns exemplos, além de Conceição Evaristo, são de Sagitário as escritoras: Jane Austen, George Eliott (Mary Ann Evans), Emily Dickinson, Louisa May Alcott, Lucy Maud Montgomery, Louise-Victorine Ackerman, Christina Rossetti, Florbela Espanca, Katherine Mansfield, Clarice Lispector, Lúcia Miguel Pereira, Adélia Prado, Maria Valéria Rezende, Ângela Lago, dentre outras.
Quanto à mitologia, esse signo está associado ao mito dos centauros, figuras que têm parte humana e parte cavalo. De acordo com Roberto Yoshida (2023, n.p.): “O mito da constelação de Sagitário remete a um semideus — o herói grego Hércules — e a dois centauros de temperamento oposto: o turbulento Íxion e o sábio Quíron”.
Nessa mesma linha de reflexão, Junito de Sousa Brandão (1986) diz que Íxion, o Rei dos Lápitas, tentou seduzir a deusa Hera, porém Zeus ficou enciumado e criou uma nuvem à semelhança da esposa para confundir Íxion, que manteve relação sexual com a nuvem. Dessa relação nasceram os Centauros. Como aponta Brandão (1986, p. 282): “Para castigá-lo, Zeus fê-lo alimentar-se de ambrosia, o manjar da imortalidade, e depois lançou-o no Tártaro. Lá está ele girando para sempre numa roda de fogo. Este mito retrata o instinto não reprimido, por vezes visto como característica no Signo de Sagitário na forma de falta de limites”.
Quanto a Quíron (que era filho, em verdade, não de Íxion, mas de Cronos e Filira), Yoshida afirma (2023, n.p.): “Ele vivia em uma caverna no monte Pélio e, diferentemente dos outros centauros, era calmo e justo. Viveu durante muito tempo em isolamento em uma gruta, adquirindo conhecimento e sabedoria. Era o deus da cura e da alquimia e também foi responsável pela educação de muitos heróis e filhos dos deuses, como Jasão, Aquiles e Asclépio”. Com isso, está construída a imagem da sabedoria associada aos sagitarianos, mas vale ressaltar, ainda, que no mito é apontada a tendência ao descomedimento.
Quíron foi mentor de Hércules e tornou-se seu amigo. Certa vez, porém, Hércules o feriu por acidente com uma flecha. O ferimento lhe proporcionou imensa dor, mas ele era imortal e, consequentemente, estaria fadado a sofrer por toda eternidade. Yoshida (2023, n.p.) menciona a esse respeito que:
“Na busca por um alívio, Quíron passou a estudar inúmeros métodos e conhecimentos de cura, porém não conseguia curar a si mesmo e ficou com uma ferida eterna. Quíron só conseguiu se livrar do sofrimento ao trocar sua imortalidade com Prometeu, que havia roubado o fogo do conhecimento dos deuses para levá-lo aos homens e foi condenado por Zeus a ficar acorrentado a uma rocha até que um ser imortal abrisse mão de sua imortalidade. O rei do Olimpo elevou então o centauro aos céus, formando a constelação de Sagitário”.
Está construída, em torno dessas narrativas mitológicas, a dualidade de Sagitário: de um lado, o aspecto selvático, incontido e impulsivo; de outro, o aspecto empático, sensível e sábio. Se pensarmos a obra de Conceição Evaristo, essa dualidade sagitariana reverbera em sua obra. Nela, a sensibilidade e a sabedoria delineiam o olhar que valoriza a condição humana em suas camadas profundas. Localizamos nela, também, o impulso e o não comedimento que potencializam, positivamente, o teor de denúncia, de reflexão e de posicionamento crítico contra o que socialmente é imposto.
Nessa perspectiva, além do livro Ponciá Vicêncio (2003), que é dos mais significativos para o processo de afirmação da Literatura afro-brasileira no Brasil, a autora publicou: Becos da memória (2006), Insubmissas lágrimas de mulheres (2011), Olhos d’Água (2014), Histórias de leves enganos e parecenças (2016), Poemas da recordação e outros movimentos (2017), Canção para ninar menino grande (2022), dentre outros. Para nossa reflexão, trazemos duas obras da autora: Ponciá Vicêncio e Becos da memória.
Ponciá Vicência evoca no título uma personagem protagonista que mora na Vila Vicêncio, com sua família, e que, após a morte do pai, decide migrar para a cidade em busca de uma vida melhor. O romance, narrado em terceira pessoa, apresenta a existência dessa personagem desde sua infância até a maturidade, isto é, sua jornada heroica se estabelece de modo a constituir um processo de formação.
É pertinente considerar nesse romance, sobretudo, a construção das personagens femininas. Além de Ponciá, cuja condição de mulher negra e pobre, inserida em contexto social em que o racismo e o patriarcalismo imperam, outras personagens merecem atenção: Maria Vicência (mãe de Ponciá e Luandi, ela representa a figura da matriarca e tem papel relevante para o universo da família Vicêncio, de modo que, em certo momento da narrativa, se desloca à procura dos filhos), Nêngua Kainda (personagem inserida na Vila Vicêncio que representa o conhecimento ancestral, a sabedoria adquirida na velhice, porquanto atua como rezadeira e, por vezes, conselheira dos moradores) e Bilisa (depois de ter buscado melhores condições econômicas, ela se depara com a necessidade de prostituir-se e, nesse contexto, tem envolvimento com o irmão de Ponciá, mas é assassinada por Negro Climério, o dono do prostíbulo em que ela atuou).
Está em pauta, na configuração dessas personagens, a realidade da mulher que se move no mundo, entre a juventude e a velhice, com vistas a construir horizontes de vida, mesmo quando tudo conspira para tornar essa construção algo desafiador e doloroso. Ponciá pode ser considerada, pela trajetória percorrida no romance, uma personagem através da qual podemos pensar o conceito de “escrevivência” criado pela escritora. Ela define esse conceito da seguinte forma:
“Se eu for pensar bem a genealogia do termo, vou para 1994, quando estava ainda fazendo a minha pesquisa de mestrado na PUC. Era um jogo que eu fazia entre a palavra “escrever” e “viver”, “se ver”, e culmina com a palavra “escrevivência”. Fica bem um termo histórico. Na verdade, quando eu penso em escrevivência, penso também em um histórico que está fundamentado na fala de mulheres negras escravizadas que tinham de contar suas histórias para a casa-grande. E a escrevivência, não, a escrevivência é um caminho inverso, é um caminho que borra essa imagem do passado, porque é um caminho já trilhado por uma autoria negra, de mulheres principalmente. Isso não impede que outras pessoas também, de outras realidades, de outros grupos sociais e de outros campos para além da literatura experimentem a escrevivência. Mas ele é muito fundamentado nessa autoria de mulheres negras, que já são donas da escrita, borrando essa imagem do passado, das africanas que tinham de contar a história para ninar os da casa-grande” (Santana; Zapparoli, 2020, n.p.).
Em Becos da memória, romance que apresenta maior diversidade de personagens, interessa-nos, sobretudo, considerar a narradora-personagem Maria-Nova e seu olhar acerca do universo complexo da “favela” em que morava. Pelo domínio da palavra, pela experiência vivida, ela pode tecer a história de tantas vidas marginalizadas que se fundem em uma mesma experiência: a “favela” se configura como espaço coletivo no qual as experiências individuais se desenvolvem e se entrelaçam. Nesse romance, portanto, localizamos plenamente o conceito de “escrevivência”, como fica perceptível no trecho em que Maria-Nova afirma:
“Escrevo como uma homenagem póstuma à Vó Rita, que dormia embolada com ela, a ela que nunca consegui ver plenamente, aos bêbados, às putas, aos malandros, às crianças vadias que habitam os becos de minha memória. Homenagem póstumas às lavadeiras que madrugavam os varais com roupas ao sol. Às pernas cansadas, suadas, negras, aloiradas de poeira do campo aberto onde aconteciam os festivais de bola da favela. Homenagem póstuma ao Bondade, ao Tião Puxa-Faca, à velha Isolina, a D. Anália, ao Tio Totó, ao Catarino, à Velha Lia, à Terezinha da Oscarlinda, à Mariinha, à Donana do Padim”.
Homens, mulheres, crianças que se amontoaram dentro de mim, como amontoados eram os barracos de minha favela (Evaristo, 2018, p. 17).
No início do trecho, Maria-Nova alude a sua avó e a uma mulher (apresentada apenas com o pronome pessoal reto “ela”) com quem essa avó mantinha um relacionamento homoafetivo. Dentre as inúmeras experiências femininas que o livro evoca, o do amor entre mulheres também está em pauta, desta feita pela rememoração dessa avó e dessa mulher sem nome que dormiam “emboladas”. Nesse sentido, ela diz (Evaristo, 2018, p. 17): “Quando eu soube, outro dia, já grande, já depois de tanto tempo, que Vó Rita dormia embolada com ela, foi que me voltou este desejo dolorido de escrever”.
A história de duas mulheres que se amavam, ao invés de levá-la ao desejo de ocultamento (prática moralista que pairou por tanto tempo sobre as narrativas de pessoas homoafetivas), leva-a ao desejo de exposição, pois escrever a esse respeito demonstra uma postura fraterna da neta pela experiência subjetiva da avó. Embora a companheira seja apresentada apenas pelo pronome (o que pode remeter mais ao contexto mimetizado do que a qualquer julgamento moral da narradora), pela escrita, o que antes poderia sofrer cerceamento, se fosse exposto, passa a ser rememorado sem amarras. Está em questão trazer à memória um ente querido sem julgamentos, porquanto o objetivo é a homenagem autêntica dessa figura maternal afetuosa e memorável.
Em seguida, Maria-Nova retoma alguns nomes que povoaram seu mundo de menina que cresceu em uma favela. Nesse espaço, entre sensações de pertencimento e observações contundentes da realidade, foi possível construir identidade e memória. O que torna esse romance um dos mais pungentes de nossa literatura se dá pelo contexto de “desfavelamento”. Quando isso ocorre, as pessoas que povoaram a história de Maria-Nova, vítimas de uma sociedade de desigualdades, se dispersam. Para rememorá-las, e compartilhar experiências vividas individual e coletivamente, a narradora-personagem articula uma narrativa fragmentada e, por vezes, dilacerante, porque sensível e comovente.
Para encerrar, no texto Uns olhos cheios d’água ao ler Conceição Evaristo, Luciana Bessa (2025, n.p.) afirma: “Conceição Evaristo tem sido um dos expoentes contemporâneos do fortalecimento e do crescimento de uma literatura negra que se propõe a não satanizar, ou endeusar o negro, mas retratá-lo como sujeitos de direito e de subjetividade, que tiveram suas vidas destruídas em nome da dominação da classe dominante”. Ela tem toda razão ao afirmar isso — e um passeio pela obra da autora permitirá que façamos essa constatação. Portanto, leia os livros de Conceição Evaristo e mergulhe nesse mundo de personagens emocionantes!
Salve Conceição Evaristo!
REFERÊNCIAS:
BESSA, Luciana. Uns olhos cheios d’água ao ler Conceição Evaristo. 2025. Disponível em: https://nordestinadosaler.com.br/2025/07/uns-olhos-cheios-dagua-ao-ler-conceicao-evaristo/. Acesso em: 25 dez. 2025.
BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia grega – Volume 1. Petrópolis: Vozes, 1986.
EVARISTO, Conceição. Becos da memória. 4. ed. Rio de Janeiro: Pallas, 2018.
__________. Literatura negra: uma poética da nossa brasilidade. 2009. Disponível em: https://periodicos.pucminas.br/scripta/article/view/4365/4510. Acesso em: 25 dez. 2025.
__________. Ponciá Vicêncio. 3. ed. Rio de Janeiro: Pallas, 2017.
SANTANA, Tayrine; ZAPPAROLI, Alecsandra. Dez perguntas para Conceição Evaristo. 2020. Disponível em: https://www.itausocial.org.br/noticias/conceicao-evaristo. Acesso em: 25 dez. 2025.
YOSHIDA, Roberto. O mito da constelação de Sagitário. 2023. Disponível em: https://constelar.com.br/colunas/ceu/mito-de-sagitario/. Acesso: 25 dez. 2025.
Sobre o autor:

Cícero Émerson do Nascimento Cardoso é doutor, mestre, especialista e graduado em Letras. Publicou: Breve estudo sobre corações endurecidos (2011), Romanceiro do Norte Juazeiro (2014), A Revolta de Antonina (2015), O Casarão sem Janelas (2018), O baile das assimetrias (2021/2022), Jornadas (2023), Romanceiros (2024) e Trilogia para o Cariri Cearense (2025). Recebeu: menção honrosa no XX Prêmio Ideal Clube de Poesia (2018); prêmio no VII Prêmio SESC de Contos; prêmio no I Prêmio Literário Demócrito Rocha–Categoria Poesia (2024); destaque no XXIV Prêmio Ideal Clube de Poesia (2024) e foi finalista do V Prêmio Caio Fernando Abreu de Literatura (2024). Foi um dos organizadores dos livros: Antologia Poética: Escritores do Cariri (2019) e Poemates Rosarvm (2019). Organizou os livros: Juazeiro tem artistas, Juazeiro tem poesia: Manifesto Poético (2024) e Haicai-Cariri: antologia de haicai (2025).
