Alexandre Lucas*
A ambiguidade da expressão “luto” demarca os contrários entre o convencimento da morte e a resistência para sobreviver. Lutamos todos os dias porque algo está sempre se transformando; a materialidade ou o sentimento nunca são estáveis. Uma dor presente ou do passado sempre nos deixa em luto, mas, por outro lado, viver é sempre uma estação de luta.
Nos primeiros sete anos de vida, lutamos para aprender a andar, falar, coordenar os movimentos das mãos e até nos limpar quando vamos ao banheiro. Já imaginou que passamos quase sete anos para aprender isso? Nada é dado; tudo é luta. Mas a luta é um processo que se dá das mais diversas formas: para alguns, têm cara de luto; para outros, a pancada é menor. Ambos, no entanto, são desafiadores.
Há dias só de luta, mas também há aqueles dias incontáveis de luta, em que boa parte das pessoas queridas está viva, mas você sente o luto de si mesmo.
É Carnaval, símbolo da alegria extravasada. O brilho se mistura com os beijos, as cores escondem o perigo do fascismo, e os corpos se jogam na luta para serem felizes.
Amanhã é quarta-feira de cinzas, dia de balanço. O que foi feito neste Carnaval? Tanta alegria necessária e alguns lutos, dentro ou fora da avenida.
Os tambores tocaram, anunciando que existem resistência, engajamento e desejo de encurtar os pudores e as burocracias estabelecidas pelas normas conservadoras.
Nasci das feituras dos adereços e dos tambores das escolas de samba. Sambei, bebi para celebrar a rebeldia e me pintei de goma branca, mas o luto me deixou de fora. Já sem forças, guardo lembranças dos últimos carnavais, gatilhos que me assassinam, deixando-me vivo.
Sambo hoje na rede com as batidas longínquas e o desejo de sonhar com o Carnaval em que eu me sinta brincante, lutador da felicidade.
Sobre autor:

*Alexandre Lucas é escrevedor, articulista e editor do Portal Vermelho.