Tag: Alexandre Lucas

Carta para um filho
Literatura

Carta para um filho

Nenhum anjo jamais me visitou, embora saiba que há quem acredite em sua existência. Mas não quero falar de anjos. Poderia começar esta carta de outra forma. Narrar vinte e dois anos, o tempo que nos conhecemos. Tenho a incerta certeza de que nos conhecemos muito pouco. Poderia aproveitar para destrinchar o amor que sinto – é óbvio que isso é esperado. Mas talvez eu seja o pai inesperado. Deixo aqui um intervalo para suas interrogações. É preciso parar constantemente para refletir sobre o que nos rodeia: seres e coisas. Nada está parado; o movimento é interminável, mesmo quando seres e coisas parecem estáticos. Filho, os pais costumam ensinar a “ser gente”. Eu nunca insistirei nessa maldade – seria, para mim, um pecado. Não aquele pecado que está escrito em algum livro sagrado, mas aq...
Brincando de reisado em tempos de guerra
Literatura

Brincando de reisado em tempos de guerra

Clarinha e Miguel brincam de reisado. Entre espadas, coroas, espelhos e as cores vibrantes do cetim, a alegria pula sobre as pedras toscas das ruas floridas de gente. É o primeiro dia do ano. Dia Mundial da Paz. A espada de São Jorge sobre a mesa não protege ninguém. A paz, por aqui, não fez morada. Clarinha e Miguel me trazem estrelas nos olhos. Ainda morrem crianças nas guerras diárias; outras se encolhem. Eu queria apenas ver Clarinha e Miguel brincando, trazendo-me as estrelas que brotam da terra. As espadas atravessam, e eu ando de olhos abertos como gato morto. Derramo lágrimas enquanto alimento os pombos. Hoje ainda é o primeiro dia do ano, e o mundo não escolhe data para acabar. Prefiro acreditar que Clarinha e Miguel continuarão brincando de reisado, mesmo que amanhã cres...
Flor de Chanana
Literatura

Flor de Chanana

Entre as calçadas surgiam chananas. Alguns diziam que é mato. O que é mato? Seriam todas as plantas abundantes cujo nome não sabemos identificar; talvez seja isso. A chanana deixa de ser mato quando sabemos seu nome, quando enxergamos sua serventia e sua importância. A chanana nasce fácil. Hoje pela manhã, nasceram chananas nos meus olhos. A noite foi serena; encontrei a ponta das estrelas e fiquei brincando de jogar bolas de nuvens. O café tinha gosto de massagem, com pedaços de morango e uva, alguns dedos  de iogurte e mel, além de sementes iguais àquelas que os pássaros comem. A gente não vê chanana em vaso. Ela surge nos campos e entre as calçadas e se torna poesia quando deixa de ser mato. Sobre o autor: Alexandre Lucas é escrevedor, articulista e editor do Por...
Cabeça Possível
Literatura

Cabeça Possível

— Você acha que sou artista? — pergunta o estudante, mostrando seus desenhos cheios de vontade de acertar. — Continue desenhando. Foi a única resposta possível para aquele momento. Poderiam ser outras, inúmeras possibilidades para animar ou frustrar aquele estudante. Continue desenhando parecia a mais cabível. Incentivar que ele continuasse desenhando talvez fosse o caminho que o pudesse tornar artista, mas fazê-lo acreditar em si já era o suficiente. Ele desenhava rostos do Homem-Aranha, só os rostos; não sabia desenhar o restante, mas já estava feliz com o resultado. Era final de ano. No próximo, talvez uma nova escola. Novos desenhos. É possível que não quisesse mais desenhar rostos do Homem-Aranha, ou que tivesse aprendido a fazer o corpo todo. Poderia também ter desisti...
Colhendo sementes
Literatura

Colhendo sementes

Logo cedo encontro tuas palavras, marcadas por brincadeiras e pulos de afeto. Guardadas no caderno de anotações entre rabiscos, ensaios de poemas, propostas, encaminhamentos, pautas vencidas e desenhos de rostos. Li lentamente tuas palavras, como quem quer sentir o gosto do fruto molhado em tempos de escassez. Pensei em escrever um livro sobre agricultura para adubar as páginas com tuas palavras e construir casulos para tuas sementes. Um livro para experimentar plantar estrelas. Parece que vai chover; o dia está nublado e abafado. Caminho para o trabalho. Carrego você nos braços da lembrança, espalho tuas palavras pelos bolsos e jardins, taco na boca e nos olhos com a delicadeza dos bordados e das aquarelas. Teu corpo despido pela manhã é um bom livro para iniciar o café, mas nada...
Grávido aos 47
Literatura, Sem categoria

Grávido aos 47

Acordei grávido aos 47 anos. A lua estava cheia e os lençóis, suados. Tomei duas garrafas de água e meus olhos pareciam sambar. Engravidar aos 47 é como chegar aos 18 — não sei bem a relação desta analogia, mas acredito que faça algum sentido. Aos 18, a responsabilidade aumenta e o mundo parece ser outro. Aos 47 anos, ainda se tem muita coisa para fazer. Meus avós se foram perto dos noventa. Morreram um pertinho do outro, tanto os maternos quanto os paternos. Não sei se chego até lá. Não penso em pular da varanda, tento me alimentar bem e, por incrível que pareça, frequento a academia — mas não tiro foto. O destino é imprevisível. Não estava nos planos engravidar aos 47. Mas aos 47 engravidei, e amanhã o mundo pode acabar. Enquanto ele não acaba, cuido da gravidez. Talvez sejam gêmeo...
Quebra-queixo, caldo de cana e ipê
Literatura

Quebra-queixo, caldo de cana e ipê

Atreparam-se para colher sementes de ipê-rosa. Suas vagens caíram, as sementes se espalharam, cataram uma por uma. Os ipês são árvores de encanto: os rosas guardam uma beleza calma, já os amarelos parecem que estão com os dentes para fora sem parar de rir. Sementes de ipê guardadas em sacos de papel, prontas para o plantio. Plantar e colher exige delicadeza e dedicação. Teve naquele dia ipês no meio do caminho. Nem só de pedras se compõem as estradas. Quebra-queixo, caldo de cana, sol para cada um, beijos sem quatro paredes e olhos de margarina na quentura do meio-dia pareciam afagos com algodão e nuvens. Atrepados na ponta da língua e dos sonhos, o ipê floresce. Poderia falar de todas as pedras do caminho e do desespero do poeta, mas contenho-me por um instante no quebra-queixo, ...
A florzinha de acerola
Literatura

A florzinha de acerola

Manhã, café para fazer. O Chupa-Manga visitava a varanda; pequenino, se escondia entre as folhas. A poeta das plantas colhia acerolas. Chegou orgulhosa da sua colheita: maduras, doces e vermelhas brilhantes. Foi logo fotografar, experimentou composições e provou cada fruto delicadamente. Café da manhã pronto. Há dias atípicos, em que o relógio é esquecido, porque o único compromisso está posto à mesa e no desejo de celebrar a delicadeza. Melancia, morango, suco de acerola, uvas, café, cuscuz, ovos e queijo. Do lado esquerdo estava a poeta das plantas, comendo e dividindo conversas. Lembrava que uma hora demorou quase um dia; promessa difícil é passar pouco tempo. A gente não faz contabilidade das horas, quando vai ver: já é outro dia. Antes do meio-dia, a poeta das flores oferta uma ...
Agricultores de Estrelas
Literatura

Agricultores de Estrelas

Vontade de pichar os céus só para dizer o quanto sinto. Nossos manifestos de amor são escritos sobre os olhos, arados na terra, debaixo dos lençóis, pelas manhãs com café e cafuné, na simplicidade de lavar a louça, na rega das plantas, na oferta da batata doce, na pimenta e no chocolate. Falta respiração; a velocidade dos acontecimentos nos faz dançar. São versos costurados no mistério e no segredo. Cabe o céu e a terra no poema sonhar. Hoje fiquei na dúvida, na verdade sem respostas. Não sabia direito o que escrever ou oferecer. Teria um trabalho imenso para enumerar a intensidade, as trocas, o sorriso fácil, os olhos brilhantes, a comida dividida entre o verde e a varanda. O sanhaço  se equilibrando no fio, bicando banana logo cedo. Não saberia por onde começar, se por um ch...
A saudade é uma porta aberta
Literatura

A saudade é uma porta aberta

Dezoito chaves. Manhã, segunda-feira. O ipê do jardim acena com suas flores amarelas para um dia nublado. Faz calor. Garoa. As dezoito chaves abrem cadeados e portas, nenhuma abre caminhos. O sol começa a dar as caras, mas logo as esconde. Tomo suco de caju enquanto brinco com as dezoito chaves. Conto até dez para tentar escutar a respiração: ela está fazendo caminhada e ouvindo música clássica. Os dias estão com gosto de primavera, e as borboletas têm aparecido na varanda. Tenho plantado algumas estrelas e carregado no bolso as chaves. Outro dia, ganhei uma música fazendo cafuné e um par de olhos brilhando como purpurina. Guardei na geladeira um bolo de pote para comer quando puder. Escrevi um poema parcelado em dez vezes para que as surpresas possam ser diárias. A saudade está d...