Carta para um filho
Nenhum anjo jamais me visitou, embora saiba que há quem acredite em sua existência. Mas não quero falar de anjos. Poderia começar esta carta de outra forma. Narrar vinte e dois anos, o tempo que nos conhecemos. Tenho a incerta certeza de que nos conhecemos muito pouco. Poderia aproveitar para destrinchar o amor que sinto – é óbvio que isso é esperado.
Mas talvez eu seja o pai inesperado. Deixo aqui um intervalo para suas interrogações. É preciso parar constantemente para refletir sobre o que nos rodeia: seres e coisas. Nada está parado; o movimento é interminável, mesmo quando seres e coisas parecem estáticos.
Filho, os pais costumam ensinar a “ser gente”. Eu nunca insistirei nessa maldade – seria, para mim, um pecado. Não aquele pecado que está escrito em algum livro sagrado, mas aq...

