Tag: Luciana Bessa

O ano de 2025 da Literatura Brasileira
Literatura

O ano de 2025 da Literatura Brasileira

Luciana Bessa A Literatura Brasileira  está caminhando de vento em polpa, embora a última pesquisa Retratos do Brasil (2025) tenha  revelado que, pela primeira vez em nossa história, a maioria dos brasileiros (53%) não lê livros. O brasileiro pode até lê pouco, mas os eventos literários pipocam por todo o país e, claro, ele não deixa de participar e até mesmo de comprar ao menos um livro. Em abril deste ano, aconteceu em Fortaleza a XV Bienal ( eu estava lá) com o tema “Das fogueiras ao jogo das palavras: mulheres, resistência e literatura”. Em um Centro de Convenções lotado todos os dias, o público encontrou além de saraus, shows, mesas literárias, 34 editoras, 25 livrarias, 32 distribuidoras e pasmem: 500 lançamentos de obras literárias, entre os dias 4 ...
Não se fazem mais dezembros como antigamente
Literatura

Não se fazem mais dezembros como antigamente

Luciana Bessa Em minha memória, dezembro sempre foi um mês marcado por festividades e simbologias. Este dezembro de 2025 nunca esteve tão insuportavelmente quente e violento. Sinto saudades daquele tempo em que nossas maiores preocupações dezembristas  giravam em torno do presente do amigo secreto, da roupa que seria usada na noite de Natal, da comilança e do ganho de peso, da constatação das metas não cumpridas e do planejamento das metas do ano vindouro. “Mudam-se os  tempos”, mudam-se as preocupações, especialmente para as mulheres. A maior agonia é manter-se viva. Domingo, 07, mulheres em todo país ( eu estava lá) foram às ruas para denunciar os altos casos de feminicídio, além de protestar contra todas as formas de agressão aos direitos femininos. Mais do que den...
A(s) metamorfose(s) do sujeito contemporâneo
Literatura

A(s) metamorfose(s) do sujeito contemporâneo

Dia 29, último sábado do mês de novembro. Participei na condição de ouvinte do grupo de Direito e Arte, projeto de Extensão da Universidade Regional do Cariri (URCA), coordenado pela professora Ana Elisa Linhares e conduzido por Juliana Souza. Livro escolhido pelo grupo? A Metamorfose do escritor alemão Franz Kafka. Sou dessas pessoas que fica impressionada com o poder dos livros através dos tempos. Uma narrativa concebida em 1915 é tão atual em 2025, que me questiono, se o escritor é um gênio, ou se a humanidade retrocede política, social, econômica e afetivamente com o passar dos dos anos? Penso que as duas opções. Em A Metamorfose (1915) conhecemos um caxeiro-viajante, Gregor Samsa, que um dia qualquer, acorda metamorfoseado em um inseto, semelhante a uma barata gigante....
Caminhos de pedra
Literatura

Caminhos de pedra

Caminhos de pedra, publicado pela primeira vez no ano de 1937, é a obra com teor mais explicitamente político da primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras (1977) e a primeira a receber o Prêmio Camões (1994) - Rachel de Queiroz. Terceira obra queirosiana, trata-se de uma metáfora para mostrar o longo percurso preconceituoso e desafiador de uma mulher, Noemi, que não se conforma com sua vida enclausurada no ambiente doméstico para cuidar do marido e do filho. Ela rompe com o papel feminino tradicional imposto às mulheres do século XX. Indicado para um dos vestibulares mais difíceis do país, FUVEST (2026/2027), a obra tem suscitado debates sobre questões feministas, já que Noemi luta por sua autonomia afetiva, política e econômica. Interessante é o fato de que a...
Quando a Literatura causa medo
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Quando a Literatura causa medo

Conceituar ou definir um vocábulo não é uma tarefa fácil, sobretudo se o vocábulo é Literatura, palavra de caráter polissêmico e polifônico. A escritora Marisa Lajolo declara  que as perguntas sobre Literatura ultrapassam os séculos, porém as respostas são sempre provisórias porque a cada época surgem novos conceitos. E acrescenta: “as definições propostas para a Literatura importam menos que caminho percorrido para chegar até ela”. Ou seja, não se trata de conceituar um termo tão rico e abrangente, mas compreender que: 1) “A literatura existe”. Ela é lida, vendida, estudada, pesquisada. 2) “A literatura é um Direito de todos” (Antonio Candido). Há quem pense que a literatura é um trabalho individual de um artista. Antes de tudo, ela é um produto da sociedade. Neste sentido, o e...
Carlos Drummond de Andrade: um escritor leitor
Literatura

Carlos Drummond de Andrade: um escritor leitor

A leitura é uma ferramenta de aprendizado, transformação e subversão. Não se sai incólume, quando se ler. Para além do conhecimento do (s) outro (s), a leitura gera um conhecimento de si. Sua natureza é ampla, diversa e significativa. A leitura pode ser entendida tanto como um momento de meditação, como de apropriação do mundo interior/exterior. Ler é uma prática pessoal e intransferível. O leitor, a convite do escritor, é um desafiador do universo das insubmissas palavras e o único responsável por suas próprias leituras. Para ser escritor é imprescindível ser, antes de tudo, um leitor. Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), além de contista, cronista, ensaísta, crítico literário e poeta, foi antes de tudo, um leitor/escritor sensível e arguto de seu tempo. O menino Carlito desde a ...
Cecília Meireles e alguns Problemas da Literatura Infantil
Literatura

Cecília Meireles e alguns Problemas da Literatura Infantil

Não é difícil escrever sobre uma escorpiana - Cecília Meireles - nascida em 07 de novembro de 1901 que exalava mistério, intensidade, magnetismo e uma força descomunal após algumas perdas. Difícil é traduzir em palavras as ausências de uma criança. Antes de nascer, seus pais, Carlos Alberto Carvalho Benevides (funcionário do Banco do Brasil) e Mathilde Benevides (professora primária), haviam perdido outros três filhos: Carmen, Vitor e Carlos. Três mês antes de vir ao mundo, Cecília fica sem o pai. Próximo de completar três anos de idade, falece a mãe. Cecília foi criada pela avó Jacinta e pela babá, Pedrina, que lhe contava histórias do folclore brasileiro. Anos mais tarde, Cecília participaria ativamente da Comissão Nacional de Folclore, porque acreditava se...
 Alforrias: um convite à poética de Rita Santana
Literatura

 Alforrias: um convite à poética de Rita Santana

Luciana Bessa Alforrias, obra poética da escritora baiana Rita Santana, publicada em 2012, traz vinte e oito poemas e um convite aos leitores: compartilhar da caminhada de um sujeito lírico que imprime à obra tonalidades afrodescentes. Além de vocábulos - “ancestrais”, “moleque”, “quilombolas”, “alambique” – esse tom já é perceptível no próprio título: “alforrias”. O maior desejo dos escravizados era conseguir sua “carta de alforria”, documento que oficializava sua liberdade. Outra conotação que o termo traz é a liberdade em relação ao homem amado, ao sentimento amoroso. Assim como o bardo português, Luís Vaz de Camões, se estiver presa é “por vontade” e nada mais. Rita Santana convidou outra poeta, Hilda Hilst, para participar da obra dela por meio do poema, colocado como epígraf...
O modo de ser e de estar no mundo
Literatura

O modo de ser e de estar no mundo

Luciana Bessa Somos fruto da “sociedade do espetáculo” (Guy Debord) em que nossas relações acabam se confundindo com mercadorias expostas nas redes sociais. Nesse contexto, a aparência se torna a tônica da existência objetificando e artificializando as relações humanas que deixam de ser vividas em sua essência. Nesta sociedade que cria, edita as regras e os valores é comum o uso de máscaras sociais, como um artifício para se conviver harmonicamente em coletividade, e assim, sermos aceitos e legitimados. A imagem que o sujeito transmite de si é de beleza, força, benevolência, fazendo com que o outro acredite em suas “boas intenções”, na perfeição de suas palavras. Via de regra, as imagens transmitidas são, na verdade, ficções criadas por outros que não nós. Ao longo dos séculos, cr...
As pulsões na Casa do Sentido Vermelho
Literatura

As pulsões na Casa do Sentido Vermelho

Luciana Bessa Algumas leituras são desafiadoras. É o caso da A Casa do Sentido Vermelho (2013), da escritora Jorgeana Braga, prêmio Aluísio de Azevedo no 34º Concurso Literário e Artístico da cidade natal da autora, São Luís do Maranhão. A obra começa com uma apresentação-pergunta do poeta Dyl Pires: “Qual o sentido do sensível em nós?”. Antes mesmo de continuar a leitura, silenciosamente busquei a resposta dentro de mim. Cedo me tornei amante das artes literárias, em especial, a literatura. Ela me salvou de um ambiente tóxico e pobre, material e emocionalmente. O sensível me forjou na mulher que me tornei hoje. Em uma sociedade individualista, capitalista marcada pelo cansaço e pela positividade tóxica, onde parte das pessoas vivem com a cabeça enterrada em seus celulares, ser sensí...